Vale Tudo e o debate sobre adoção: a polêmica do “pai biológico” e os impactos na representação de famílias
A nova versão de Vale Tudo trouxe uma inovação importante em relação à trama original de 1988: a inclusão de um núcleo dedicado a um casal homoafetivo que decide adotar uma criança. Inicialmente celebrada como um avanço, a representação logo se tornou alvo de críticas quando o roteiro introduziu a figura de um suposto “pai biológico” que ameaça desestabilizar a família formada por duas mães.
O recurso dramático, pensado para gerar conflito, acabou sendo interpretado por movimentos sociais e especialistas como um retrocesso, por reforçar estereótipos e colocar em dúvida a legitimidade de famílias homoafetivas.
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A chegada do “pai biológico”
Na trama atual, Laís e Cecília, casal de protagonistas, vivem a alegria de construir uma família com a filha Sarita. Porém, a entrada repentina de Luís, que se apresenta como pai biológico da menina, gera um embate jurídico e emocional.
Ao usar a expressão “pai biológico”, a novela sugere que esse vínculo de sangue teria peso suficiente para colocar em xeque anos de convivência e afeto. Esse ponto específico foi o estopim da polêmica.
A reação imediata
Grupos como o Coletivo Dupla Maternidade se manifestaram publicamente, afirmando que a escolha narrativa foi infeliz e deseducativa. Para eles, a novela transmite a ideia de que famílias homoafetivas podem ser “menos legítimas” e sempre vulneráveis a contestação, o que não corresponde à realidade legal da adoção no Brasil.
Por que a narrativa foi criticada
Linguagem problemática
O termo “pai biológico”, quando usado sem contexto adequado, pode reforçar a noção de que apenas o vínculo genético tem valor. Isso ignora o princípio jurídico do melhor interesse da criança, que privilegia laços de cuidado, estabilidade e afeto.
Impacto social
Novelas alcançam milhões de lares brasileiros. Ao dramatizar esse tipo de situação sem esclarecer a complexidade legal e social da adoção, a obra pode reforçar preconceitos contra famílias diversas, especialmente casais LGBTQIA+ que ainda enfrentam resistência social.
Estereótipos reavivados
Ao invés de fortalecer a representatividade, o recurso narrativo reacendeu o estigma de que famílias homoafetivas seriam frágeis ou menos legítimas. Para críticos, esse tipo de escolha reverte avanços conquistados em anos de luta.
O papel da novela na cultura brasileira

Entretenimento e educação
Novelas não são apenas entretenimento: historicamente, influenciam debates sociais e moldam percepções coletivas. Tramas que envolvem saúde, direitos civis e questões familiares já impactaram diretamente o comportamento da sociedade.
Atualizações e riscos no remake
O remake de Vale Tudo buscou modernizar a narrativa com novos núcleos e temas contemporâneos. Entretanto, ao inserir o “pai biológico” como vilão ou obstáculo, a trama acabou tropeçando em um debate delicado que exige responsabilidade e contextualização.
O olhar dos especialistas
Posição de coletivos
Organizações ligadas à defesa das famílias homoafetivas destacam que a novela deveria adotar uma linguagem mais precisa. Para eles, o roteiro reforça uma visão ultrapassada e abre espaço para interpretações equivocadas sobre o funcionamento da adoção no Brasil.
Visão jurídica
Advogados de direito de família lembram que a simples alegação de vínculo biológico não é suficiente para determinar a guarda de uma criança. O que prevalece na legislação brasileira é o interesse do menor, que considera o ambiente em que ele se desenvolveu, os vínculos afetivos estabelecidos e a segurança emocional oferecida pelos responsáveis.
Representatividade em debate
Especialistas em comunicação e cultura também avaliam que a novela perdeu a chance de reforçar positivamente a diversidade ao optar por um recurso dramático que fragiliza a representatividade. Para eles, seria possível abordar conflitos familiares de forma inovadora sem recorrer a estereótipos que colocam em dúvida direitos já reconhecidos pela lei.
Possíveis desdobramentos
Caminhos da trama
Entre os possíveis rumos, está a revelação de que Luís teria outras intenções além da paternidade, o que poderia ressignificar o conflito. Outra hipótese é que a guarda continue com Laís e Cecília, reafirmando a legitimidade da adoção homoafetiva.
Repercussão junto ao público
As redes sociais já se tornaram espaço de debate e críticas ao enredo. Parte do público pede que a novela corrija o rumo da narrativa, mostrando que o afeto e a estabilidade familiar têm mais valor do que um vínculo biológico isolado.
Considerações finais
O arco de adoção em Vale Tudo revelou a força que uma novela tem para influenciar percepções sociais. Ao introduzir a figura de um “pai biológico” contra um casal homoafetivo que já formava uma família consolidada, a obra abriu espaço para um debate importante, mas também se arriscou a reforçar preconceitos e inseguranças.
O desfecho da história será determinante para definir se a novela conseguirá transformar a polêmica em oportunidade de reafirmar direitos e mostrar que o verdadeiro laço familiar se constrói pelo cuidado e pelo amor, não apenas pela biologia.
