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Uma carta emocionante de um velhinho com alzheimer para sua esposa

Leninha, meu amor.

Te escrevo esta carta, mas a única viagem que ela fará, será da minha mão para a tua. Escrevo porque você vai precisar ler muitas vezes, e eu também vou precisar que a leia. Não é à toa que me esqueço constantemente das coisas, não é à toa que de um momento para o outro a minha personalidade muda, não é à toa que por vezes o meu discurso não faz sentido. Mas que Deus me ajude a terminar esta carta, pelo menos esta carta, sem que a memória se vá embora e me deixe perdido a olhar para esta folha. Hoje sei que em breve não saberei quem sou, disseram-me os médicos. Tenho alzheimer. Deixarei de viver antes do dia da minha morte, a vida escolheu-me para ter este fim, mas antes disso, escolheu-me para ser o marido mais feliz do mundo, o pai mais feliz do mundo, e por isso não consigo ficar desiludido com ela. Aceito, só posso aceitar.

Não fique triste por mim, meu amor, pois eu não irei sofrer, não me irei lembrar sequer da dor. Os nossos filhos estão bem e você é forte o suficiente para superar isto, não sinta pena de mim, por favor, sinta amor, só, e toma conta de mim se puder. Mas eu não quero atrapalhar a tua vida, não te quero prender em casa para não me deixares fazer asneiras, não te quero prender ao lado da cama para que saiba se está tudo bem comigo, nem quero te prender a mim quando eu já não for mais a pessoa que amaste tantos anos. Não quero nada disto mas também sei que, por menos que queira ou por mais que te peça, tu nunca me irias abandonar, nunca irias desistir de mim. Tantas vezes me perguntava porque é que eu te tinha escolhido para viver ao meu lado, porque é que eu te amava se você não era bonita nem tinhas nada de especial. Você nunca desistiria de mim, nunca me abandonaria, quer maior beleza que isto? Quer maior motivo para te amar e querer viver contigo para sempre? Sei que nunca os pequenos almoços que te levei à cama poderão compensar os dias a fio em que me darás de comer à boca, sei que nunca os momentos em que te confortei poderão compensar as preocupações que terás comigo, mas lembre-se, já que eu não irei conseguir, que eu serei o homem mais sortudo do mundo por te ter tomando conta de mim.Só eu posso sentir tristeza por não me lembrar de tantas coisas bonitas que vivemos, só eu posso sentir tristeza por não reconhecer mais o teu lindo sorriso, só eu posso sentir tristeza por não poder sentir mais nada. Lembre-se de tudo isto por mim, sorri por mim, seja feliz por mim, por favor! E lá no fundo, mesmo sem saber, eu também serei, prometo.

Estou indo embora mas ainda estou aqui, perco-me lentamente numa memória que o tempo desvanece, caio no vazio do esquecimento e não posso fazer nada, dói amor, claro que dói, mas enquanto me dói, sei que vivo, e sei que deixarei de saber.Esta doença me levará daqui e deixará apenas o meu corpo a atrapalhar e a dar trabalho. É triste, muito triste. Por isso peço que me perdoes Leninha. Perdoa-me quando não te reconhecer a ti e aos nossos filhos, perdoe quando você estiver mal e eu ficar indiferente, perdoe quando disser que me amas e eu não retribuir, perdoe quando não sentir mais a tua falta, perdoe quando me olhares nos olhos e não vires nada, perdoe quando eu me for embora e não disser adeus.Mas prometo, meu amor, que vou te amar para sempre, vou te amar sem fim, vou te amar para sempre num cantinho de mim.

Vou te amar para sempre, prometo… só não me vou lembrar.