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Condições de trabalho precárias elevam o risco de AVC, alertam especialistas

Relação entre trabalho e AVC preocupa profissionais de saúde

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é uma das principais causas de morte e incapacidade no Brasil, e novos estudos indicam que as condições de trabalho podem ter papel direto nesse aumento. Médicos e pesquisadores vêm alertando que jornadas prolongadas, ruído intenso e estresse contínuo podem contribuir para o surgimento de doenças cerebrovasculares.

A médica neurologista Ana Cláudia Fernandes, em entrevista ao portal R7, destacou que “ambientes de trabalho com pressão sonora elevada, poucas pausas e longas horas de atividade são fatores que, ao longo do tempo, impactam o sistema cardiovascular e aumentam o risco de AVC”. O alerta reforça a necessidade de incluir a saúde ocupacional no debate sobre doenças crônicas e qualidade de vida.

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O que é o AVC e como o trabalho influencia seu desenvolvimento

O AVC ocorre quando há interrupção ou rompimento do fluxo sanguíneo no cérebro, o que impede o fornecimento de oxigênio e nutrientes às células cerebrais. Existem dois tipos principais:

  • Isquêmico, causado por obstrução de artérias.
  • Hemorrágico, provocado pelo rompimento de vasos sanguíneos.

Condições que afetam o sistema circulatório — como hipertensão, colesterol elevado e diabetes — são conhecidas como fatores de risco. Porém, nos últimos anos, pesquisas mostram que o estilo de vida profissional também desempenha papel importante.

Trabalhar mais de 55 horas por semana, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), eleva em cerca de 35% o risco de AVC em comparação com jornadas de 35 a 40 horas. Isso se deve, principalmente, ao estresse crônico, à falta de descanso e à exposição constante a ruídos e pressão emocional.

Principais condições de trabalho associadas ao AVC

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Imagem – Bestofweb/Freepik

Jornadas prolongadas

O excesso de trabalho reduz o tempo de sono e descanso, aumenta o estresse e contribui para o desgaste do sistema cardiovascular. Além disso, quem trabalha por longos períodos tende a adotar hábitos pouco saudáveis, como alimentação inadequada e sedentarismo.

Ambientes ruidosos e pressão sonora

Trabalhadores expostos a níveis elevados de ruído, especialmente acima de 85 decibéis, enfrentam aumento da pressão arterial e da liberação de hormônios do estresse, como adrenalina e cortisol. Esses efeitos favorecem a rigidez dos vasos sanguíneos e aumentam a probabilidade de eventos cerebrovasculares.

Estresse e esgotamento mental

O estresse ocupacional crônico altera o funcionamento do sistema nervoso autônomo e eleva os níveis de inflamação no corpo. Essa combinação gera sobrecarga no coração e nas artérias, prejudicando o fluxo sanguíneo cerebral. Ambientes com cobranças excessivas, metas inalcançáveis e falta de reconhecimento são alguns exemplos de contextos nocivos.

Falta de pausas e sedentarismo

Muitos profissionais passam horas sentados, o que reduz a circulação sanguínea e aumenta o risco de formação de coágulos. A ausência de pausas curtas para alongamentos e movimentação durante o expediente agrava esse quadro, especialmente em funções administrativas ou de transporte.

Impactos no Brasil: custos, jornadas e saúde pública

O AVC é a segunda maior causa de morte no país e responde por milhares de afastamentos do trabalho todos os anos. Segundo estimativas do Ministério da Saúde, o Brasil perde centenas de milhões de dias produtivos anualmente por incapacidade relacionada à doença, o que representa bilhões de reais em prejuízos econômicos diretos e indiretos.

Os setores mais afetados são aqueles com turnos longos ou noturnos, como transporte, enfermagem, vigilância, indústria e comércio. Trabalhadores com dupla jornada — como profissionais de saúde e professores — estão ainda mais vulneráveis.

Entenda os mecanismos biológicos

Como o estresse constante afeta o cérebro

O estresse estimula a liberação de cortisol, hormônio que aumenta a glicose no sangue e a pressão arterial. Quando esse estado se prolonga, as paredes das artérias sofrem microlesões, facilitando a formação de placas e coágulos.

Efeitos da falta de sono e descanso

Dormir menos de seis horas por noite aumenta a probabilidade de AVC em até 30%, segundo pesquisas da Universidade de Harvard. O descanso insuficiente impede a regulação da pressão arterial e da frequência cardíaca, além de comprometer o metabolismo.

Ruído e vibração: inimigos invisíveis

Ambientes com máquinas, motores e tráfego constante geram microvibrações que, somadas à pressão sonora, interferem no sistema circulatório. Essa sobrecarga silenciosa é comum em fábricas, aeroportos e centros logísticos.

Como reduzir os riscos

Ações do empregador

  • Limitar horas extras e promover pausas regulares. Pequenos intervalos a cada duas horas reduzem o estresse e melhoram a circulação.
  • Investir em programas de prevenção cardiovascular. Check-ups e campanhas internas podem identificar precocemente fatores de risco.
  • Controlar o ruído no ambiente de trabalho. Medidas simples, como isolamento acústico e uso de protetores auriculares, ajudam a preservar a saúde.

Cuidados individuais

  • Praticar atividade física regularmente. Caminhadas de 30 minutos por dia reduzem o risco de AVC em até 40%.
  • Controlar a pressão arterial. Medir frequentemente e seguir orientações médicas é fundamental.
  • Adotar uma alimentação equilibrada. Menos sal e gordura, mais frutas e verduras, além de hidratação adequada.
  • Evitar o tabagismo e o consumo excessivo de álcool. Ambos aumentam a coagulação e danificam os vasos cerebrais.
  • Reconhecer os sinais de alerta. Dormência repentina, dificuldade para falar, perda de visão ou fraqueza em um lado do corpo exigem atendimento imediato.

A importância da saúde ocupacional

Os especialistas defendem que a prevenção do AVC deve incluir a melhoria das condições de trabalho. O problema não se restringe ao estilo de vida, mas também à estrutura das empresas e à gestão das jornadas.

Campanhas educativas, fiscalização de horários e programas de bem-estar são ferramentas eficazes para reduzir o impacto da doença. A médica Ana Cláudia ressalta que “o cuidado com o trabalhador precisa ir além do exame periódico — deve envolver condições reais de descanso, alimentação e suporte emocional”.

Políticas públicas e conscientização

A relação entre trabalho e AVC reforça a necessidade de integrar a saúde ocupacional às políticas públicas. Ações conjuntas entre o Ministério da Saúde, o Ministério do Trabalho e as empresas podem diminuir casos evitáveis. Fiscalização de ruídos, limites de jornada e incentivo ao exercício físico no ambiente corporativo são medidas essenciais.

Além disso, é fundamental educar a população sobre os sintomas e a rapidez no atendimento. Quanto mais cedo o paciente recebe socorro, maiores são as chances de recuperação sem sequelas graves.

Considerações finais

O aumento dos casos de AVC no Brasil está diretamente ligado às mudanças no estilo de vida e nas condições de trabalho. Jornadas longas, ruído excessivo, estresse e falta de descanso formam uma combinação perigosa para o cérebro e o coração.

Empresas, governos e trabalhadores precisam agir em conjunto para reduzir esses riscos. Melhorar o ambiente laboral, garantir pausas adequadas e promover hábitos saudáveis não é apenas uma questão de produtividade, mas de preservação da vida.

O alerta é claro: trabalhar demais pode custar mais do que a saúde — pode custar a própria vida. O equilíbrio entre desempenho e bem-estar é o verdadeiro caminho para um futuro com menos doenças e mais qualidade de vida.