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SUS do Brasil vira referência para modelo comunitário no Reino Unido

O sistema de saúde brasileiro vira referência no exterior

Em um cenário global onde muitos países enfrentam desafios em seus sistemas de saúde, o Brasil surpreende ao se tornar referência internacional. O Sistema Único de Saúde (SUS), frequentemente criticado internamente, tem despertado o interesse de outras nações, inclusive de potências como o Reino Unido. Um dos pilares que chamou a atenção do modelo britânico foi a atuação dos agentes comunitários de saúde (ACS), figura fundamental na atenção primária no Brasil.

Pesquisadores britânicos vêm estudando como o SUS consegue, com recursos limitados, alcançar resultados significativos em prevenção, controle de doenças e vínculo com a população.

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Entendendo o SUS: o maior sistema de saúde pública do mundo

Um sistema universal e gratuito

O SUS foi criado pela Constituição de 1988 com o princípio de garantir saúde como um direito de todos e dever do Estado. É gratuito, universal e atende mais de 190 milhões de brasileiros.

Abrangência e capilaridade

O sistema cobre desde atendimentos ambulatoriais simples até procedimentos de alta complexidade, como transplantes. Está presente em todos os municípios do país, com mais de 40 mil unidades de saúde espalhadas pelo território nacional.

Programas de referência internacional

Entre os programas reconhecidos mundialmente, destacam-se:

  • Estratégia Saúde da Família (ESF): que leva atendimento básico a comunidades remotas;
  • Programa Nacional de Imunizações (PNI): referência em campanhas de vacinação;
  • Sistema de vigilância epidemiológica: essencial no combate a surtos como H1N1, Zika, Covid-19 e dengue.

O sistema britânico em crise

A crise do NHS

O NHS, sistema de saúde britânico criado em 1948, também é gratuito e universal. No entanto, enfrenta atualmente uma das maiores crises de sua história: filas de espera longas, déficit de profissionais e financiamento abaixo das necessidades.

Custo-benefício em xeque

Apesar de ser considerado um dos sistemas mais eficientes da Europa, o NHS vem sendo pressionado por uma população envelhecida, aumento das doenças crônicas e escassez de recursos. Isso levou o Reino Unido a buscar alternativas e boas práticas fora de suas fronteiras.

O que chamou a atenção do Reino Unido no SUS?

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Imagem – Bestofweb/Canva

1. Atenção Primária à Saúde como eixo central

O modelo brasileiro, centrado na atenção básica com forte presença da Estratégia Saúde da Família, é apontado como mais preventivo e eficaz a longo prazo. No Reino Unido, há uma dependência maior de hospitais e serviços de urgência.

2. Resposta a emergências sanitárias

A atuação do SUS durante a pandemia de Covid-19, apesar das limitações políticas, foi elogiada por organismos internacionais. O programa de vacinação em massa, coordenado nacionalmente, foi mais ágil que o britânico em determinadas fases da campanha.

3. Integração entre dados e ações locais

O uso de sistemas integrados de informação em saúde, como o e-SUS e o DataSUS, permite uma coordenação eficaz entre ações locais e políticas nacionais. Essa integração chamou atenção de pesquisadores britânicos, que enfrentam dificuldades semelhantes.

4. Engajamento comunitário

Equipes de Saúde da Família trabalham em contato direto com as comunidades, o que favorece o vínculo entre profissionais e pacientes. Essa abordagem personalizada ainda é incipiente no NHS, onde o atendimento é mais impessoal.

Parcerias e pesquisas internacionais

Acordos de cooperação entre Brasil e Reino Unido

Nos últimos anos, universidades e centros de pesquisa do Reino Unido, como a University College London (UCL) e a London School of Hygiene & Tropical Medicine, firmaram parcerias com instituições brasileiras como Fiocruz e USP para estudar a estrutura e os resultados do SUS.

O olhar da OMS

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já classificou o SUS como um dos maiores sistemas integrados de saúde do mundo. Seu modelo de atenção primária é constantemente citado como exemplo em publicações da organização.

Casos concretos de inspiração

O modelo brasileiro em Manchester

Um projeto-piloto em Manchester, na Inglaterra, baseado na Estratégia Saúde da Família, está sendo testado com apoio de profissionais brasileiros e da UCL. A ideia é replicar a proximidade comunitária do SUS nos bairros periféricos da cidade.

Sistema de vacinação descentralizado

A campanha de vacinação britânica contra a Covid-19 incorporou elementos inspirados no PNI brasileiro, como a utilização de escolas, igrejas e centros comunitários como pontos de vacinação.

O paradoxo brasileiro: valorização internacional, críticas internas

Falta de reconhecimento no Brasil

Apesar do prestígio internacional, o SUS ainda sofre com subfinanciamento, sucateamento de unidades e sobrecarga de profissionais. O desconhecimento da população sobre sua importância também contribui para a desvalorização interna.

A desinformação como obstáculo

Pesquisas mostram que muitos brasileiros acreditam que o SUS é apenas para “quem não pode pagar por um plano”, ignorando a universalidade e os benefícios diretos e indiretos para todos, inclusive usuários da rede privada.

O que o Reino Unido pode realmente adotar do SUS?

Adaptação de conceitos, não cópia

Especialistas apontam que não se trata de copiar o modelo brasileiro, mas de adaptar boas práticas, como o foco em atenção primária, o engajamento comunitário e a organização em redes locais.

Fortalecimento da saúde pública

O exemplo brasileiro serve como argumento para reforçar o papel do Estado na coordenação da saúde, contrariando tendências de privatização e descentralização que fragilizam sistemas como o britânico.

Desafios comuns, soluções compartilhadas

Envelhecimento populacional

Tanto o Brasil quanto o Reino Unido enfrentam o desafio do envelhecimento da população. Modelos integrados de atenção ao idoso e programas de prevenção crônica são caminhos que ambos os países precisam desenvolver.

Sustentabilidade financeira

Manter um sistema de saúde universal exige planejamento a longo prazo e financiamento contínuo. Nesse ponto, o Brasil conseguiu avançar com políticas públicas mesmo diante de crises econômicas.

Considerações finais

A crescente atenção do Reino Unido ao SUS é uma oportunidade para o Brasil reconhecer o valor do seu sistema de saúde. Ao mesmo tempo, reforça que a construção de um modelo público eficiente e acessível depende de investimento, inovação e, principalmente, compromisso político com a vida.

O SUS não é perfeito — longe disso. Mas está provando, dentro e fora do país, que é possível oferecer saúde gratuita, integral e de qualidade, mesmo em meio às adversidades.