
Extinção da humanidade em 2026? A teoria que vem intrigando cientistas
Quatro meses após as bombas de Hiroshima e Nagasaki, um grupo de cientistas da Universidade de Chicago decidiu que o mundo precisava de um espaço permanente para discutir riscos globais associados à tecnologia. Assim nasceu o Bulletin of the Atomic Scientists (BAS), inicialmente focado no perigo nuclear, mas que ao longo das décadas passou a incorporar ameaças como biotecnologia, inteligência artificial, crise climática e desinformação.
Em 1947, o BAS apresentou um dos símbolos mais poderosos do século XX: o Relógio do Juízo Final. Nele, a meia-noite representa a extinção da humanidade, enquanto os ponteiros indicam o quão perto ou longe estamos desse colapso. Não se trata de uma previsão literal, mas de um termômetro simbólico baseado em análises científicas e geopolíticas.
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Como funciona o Relógio do Juízo Final
Um indicador de risco, não de destino
Todos os anos, um conselho formado por cientistas e especialistas em segurança global decide se os ponteiros devem avançar ou recuar. A decisão leva em conta fatores como:
- Tensões nucleares e modernização de arsenais
- Avanço e impactos da crise climática
- Uso e regulação de novas tecnologias, como a IA
- Instabilidade política global e conflitos armados
Em diferentes momentos da história, o mundo já esteve perigosamente perto da meia-noite. Ainda assim, o movimento registrado em 2023 chamou atenção: o relógio foi ajustado para 90 segundos da meia-noite, a posição mais próxima do limite desde sua criação.
O susto recente e a pergunta inevitável
Com o relógio tão próximo do “zero”, uma ideia voltou a circular com força: a de que 2026 poderia representar um ponto crítico para a humanidade. Essa noção não surgiu agora, nem veio do BAS diretamente, mas de um cálculo feito décadas antes por um cientista pouco conhecido fora dos círculos acadêmicos.
Heinz von Foerster e a conta que virou alerta
Quem foi o cientista por trás da previsão
Heinz von Foerster foi um físico austríaco-americano, ligado à cibernética e ao estudo de sistemas complexos. Nos anos 1960, ele causou impacto ao afirmar, em uma entrevista, que se as tendências de crescimento da época continuassem inalteradas, a humanidade poderia enfrentar um colapso por volta de 2026.
Não havia meteoros, guerras nucleares inevitáveis ou cenários cinematográficos em sua análise. O problema, segundo Foerster, seria mais banal e, justamente por isso, mais perigoso: gente demais, consumindo recursos em um planeta finito.
Crescimento exponencial e efeito cumulativo
Foerster não se colocava como profeta do apocalipse. Seu objetivo era mostrar o comportamento de uma curva de crescimento acelerado. Quando população, consumo e demanda por recursos crescem juntos, os impactos deixam de ser lineares e passam a se acumular de forma explosiva.
Mais pessoas significam mais pressão sobre água, alimentos, energia, moradia e sistemas urbanos. Ao mesmo tempo, os ecossistemas perdem capacidade de absorver esse impacto.
População mundial e o aperto das cidades
Do “baby boom” aos 8 bilhões
Em 1960, a população mundial girava em torno de 3 bilhões de pessoas. Em 2022, o planeta ultrapassou a marca de 8 bilhões. Projeções da ONU indicam quase 10 bilhões até 2050 e mais de 11 bilhões no fim do século.
Esse crescimento não acontece de forma distribuída. Estima-se que cerca de 60% da população mundial viverá em áreas urbanas até meados do século, o que significa acomodar aproximadamente 2,5 bilhões de novos moradores em cidades já sobrecarregadas.
Urbanização e disputa por espaço
Projetos urbanos inovadores, como iniciativas de reaproveitamento de terrenos subutilizados, tentam responder a esse desafio. Ainda assim, o problema não se limita às cidades. O campo também enfrenta limites claros, seja pela expansão agrícola, seja pela degradação ambiental.
A conta da comida: quem ocupa a terra do planeta
Agricultura, pecuária e uso do solo
Estudos internacionais indicam que cerca de 40% das terras do planeta já são usadas pela agropecuária. Uma parcela significativa dessa área não serve diretamente para alimentar pessoas, mas para sustentar rebanhos, seja por meio de pastagens, seja pela produção de ração.
Na prática, cada refeição carrega consigo uma “pegada territorial”. Quanto maior a população e mais intensivo o consumo, maior a pressão sobre florestas, biodiversidade e recursos hídricos.
Tecnologia ajuda, mas não resolve sozinha
Avanços em produtividade agrícola e biotecnologia são fundamentais, mas não eliminam o problema estrutural. A matemática apontada por Foerster segue válida: decisões individuais, quando multiplicadas por bilhões, geram impactos coletivos imensos.
Relógio do Juízo Final e riscos interligados
Crise climática, conflitos e tecnologia
O Relógio do Juízo Final considera hoje um conjunto de ameaças que se retroalimentam. Mudanças climáticas intensificam escassez de água e alimentos, o que aumenta tensões sociais e conflitos. Guerras desviam recursos que poderiam ser usados para adaptação climática e desenvolvimento sustentável. Tecnologias mal reguladas ampliam riscos em escala global.
O avanço para 90 segundos da meia-noite em 2023 reflete justamente essa combinação perigosa.
“Espremidos até a morte”: o colapso silencioso
Foerster descrevia o colapso não como uma explosão repentina, mas como um aperto progressivo. Trânsito constante, poluição, preços de moradia inalcançáveis, serviços públicos no limite, eventos climáticos extremos e disputas por recursos formariam um cenário de desgaste contínuo.
Ele chegou a sugerir políticas de controle de natalidade controversas, como taxação para famílias numerosas. A proposta é amplamente criticada hoje, sobretudo por seus efeitos sociais desiguais. Ainda assim, a pergunta central permanece: como organizar um planeta superpovoado sem transformar a vida cotidiana em um sufoco permanente?
O que ainda pode ser feito
Planejamento urbano inteligente
Cidades mais compactas, com moradia próxima a emprego, serviços e transporte público, reduzem pressão ambiental e social. Reaproveitar vazios urbanos e investir em infraestrutura verde ajuda a melhorar a qualidade de vida.
Produção e consumo mais eficientes
Redução do desperdício de alimentos, proteção de biomas e restauração de áreas degradadas aliviam a pressão sobre a terra. Dietas mais diversificadas também contribuem para um uso mais racional dos recursos.
Redução de riscos sistêmicos
Acelerar a descarbonização, fortalecer a diplomacia científica e investir em educação e saúde são medidas centrais. Direitos reprodutivos e informação de qualidade permitem escolhas livres e conscientes, com impacto direto na dinâmica populacional.
2026 é o fim do mundo?
A resposta curta é não. A data funciona como símbolo de alerta, não como sentença definitiva. O valor da análise de Heinz von Foerster está menos no ano exato e mais no ritmo da curva que ele descreveu. Se as variáveis mudam, a trajetória também muda. Energia limpa, cidades mais inteligentes, produção eficiente e políticas sociais sólidas alteram o resultado.
No fim das contas, o Relógio do Juízo Final não marca um destino inevitável. Ele lembra, ano após ano, que o tempo das escolhas ainda existe, mas não é infinito.
