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Rede subterrânea: por que a fiação elétrica invisível não se populariza no Brasil?

A rede elétrica paulistana voltou a colapsar após a forte tempestade de 11 de outubro, quando ventos de até 100 km/h derrubaram cerca de 400 árvores e deixaram 1,6 milhão de moradores sem energia. Três dias depois, 400 mil pessoas ainda estavam no escuro. A fragilidade da rede elétrica aérea reacendeu um debate antigo: por que, mesmo com tempestades cada vez mais intensas, a rede elétrica subterrânea não se torna padrão na maior cidade do país?

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Um problema antigo na rede elétrica

A origem histórica da discussão

A ideia de enterrar cabos não é nova. Já no fim do século XIX, o engenheiro britânico Arthur Vaughan Abbott alertava para os limites da distribuição aérea. Em seu livro The Electrical Transmission of Energy (1888), ele destacava que a rápida expansão de circuitos elétricos suspendidos criava confusão visual, riscos e interferências urbanas.

Desafios técnicos do subsolo

Mesmo naquela época, as dificuldades para colocar a energia no subsolo eram evidentes. Abbott afirmava que até cabos blindados poderiam ser destruídos facilmente, e que a água subterrânea era uma ameaça constante. Mais de um século depois, a manutenção da rede subterrânea continua sendo complexa, cara e demorada.

Enquanto isso, a transmissão aérea ainda sofre com problemas previsíveis: ventos fortes, quedas de galhos, granizo, sujeira nos isoladores e variações nas condições climáticas, que afetam diretamente a estabilidade da rede elétrica.

Quanto custa enterrar fios?

Os números em São Paulo

Em 2017, o então prefeito João Doria prometeu enterrar 52 km de fios no centro da capital paulista. Ricardo Nunes elevou a promessa para 65 km. Até hoje, apenas 40 km foram executados. Não há previsão clara para conclusão.

O motivo é simples: custo. Enterrar cabos em larga escala pode custar até dez vezes mais do que manter a rede aérea tradicional. Isso se reflete no ritmo lento da implementação.

Perspectiva internacional

Nos Estados Unidos, concessionárias alegam que uma milha (1,6 km) de cabo aéreo custa US$ 100 mil, mas o mesmo trecho subterrâneo ultrapassa US$ 1 milhão. Em alguns estados, estudos indicam que migrar toda a rede para o subsolo poderia elevar tarifas em até 125%.

Além disso, o método não funciona igualmente bem em todos os tipos de solo. Áreas com risco de enchentes, terrenos rochosos ou geologia instável exigem investimentos ainda maiores.

Impacto urbano

Segundo o professor Edval Delbone, do Instituto Mauá de Tecnologia, transformar toda a rede da capital exigiria longos períodos de interdição de avenidas e centros comerciais. Valas precisariam ser abertas por dias ou semanas, prejudicando o fluxo urbano e aumentando custos operacionais.

Por que a rede elétrica subterrânea segue limitada?

Complexidade operacional

Enterrar cabos exige planejamento detalhado, intervenções profundas e mão de obra altamente especializada. Cada trecho demanda escavação, isolamento, proteção mecânica, dutos adequados e drenagem eficiente.

Manutenção complicada

Ao contrário dos cabos aéreos — que são visíveis e de fácil acesso —, defeitos no subsolo exigem escavações para identificar e reparar danos. Isso torna a resolução de falhas mais cara e lenta.

Prioridades governamentais

O investimento massivo necessário para mudar completamente o modelo de distribuição esbarra em limitações orçamentárias e falta de planejamento contínuo entre governos estaduais, municipais e concessionárias.

Um futuro possível?

Embora caro, o sistema subterrâneo é mais seguro, reduz riscos de quedas de árvores sobre fiações e é menos vulnerável a temporais. Especialistas defendem sua adoção gradual, especialmente em regiões densamente povoadas, áreas comerciais e corredores estratégicos.

No entanto, sem investimento contínuo e políticas públicas de longo prazo, São Paulo deve continuar sofrendo com ventos fortes derrubando estruturas frágeis, deixando a metrópole vulnerável a apagões recorrentes.

A modernização da rede elétrica é possível, mas custosa — e exige mais do que promessas: requer planejamento sólido, financiamento e compromisso governamental.