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Ração tóxica da Nutratta causa morte de 245 cavalos e desencadeia crise sanitária

O que é a monocrotalina

Substância altamente tóxica para equinos

A monocrotalina é um composto tóxico encontrado em algumas leguminosas silvestres, com ação hepatotóxica e neurotóxica. Em equinos, mesmo pequenas quantidades podem causar necrose hepática, falência múltipla de órgãos e danos irreversíveis no sistema nervoso.

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Como a substância age no organismo

Ao ser ingerida, a monocrotalina atinge o fígado, onde é metabolizada de forma lenta, o que permite que seus efeitos se acumulem. Os sintomas clínicos incluem perda de apetite, icterícia, fraqueza muscular, dificuldade para se manter em pé e morte súbita. Animais autopsiados apresentaram alterações típicas no fígado e níveis anormais de enzimas hepáticas.

A linha do tempo da crise

Primeiros casos relatados em maio

O alerta começou no final de maio, quando criadores relataram a morte de cavalos saudáveis após começarem a usar a ração. Inicialmente, os casos pareciam isolados, mas rapidamente a situação ganhou proporções alarmantes.

Expansão dos óbitos

À medida que as investigações avançavam, surgiram registros em diversas regiões. Em poucas semanas, mais de 245 cavalos morreram em decorrência da ração contaminada. A conexão com os produtos da Nutratta se tornou inevitável após análises laboratoriais confirmarem a presença de alcaloides pirrolizidínicos.

Ação do Ministério da Agricultura

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) agiu rapidamente após as confirmações. No dia 4 de julho, a pasta determinou a interdição cautelar de todos os produtos para equinos fabricados pela Nutratta. A medida incluiu o recolhimento imediato dos lotes suspeitos.

Cidades e regiões afetadas

ração
Imagem – Bestofweb/Canva

Minas Gerais

Municípios como Uberlândia, Guaranésia, Jequeri e outras cidades do interior mineiro registraram dezenas de óbitos. Muitos cavalos mortos pertenciam a criadores tradicionais da região.

São Paulo

Casos também foram confirmados em Jarinu, Santo Antônio do Pinhal, Campinas e arredores. Criadores relataram perdas de animais de competição e alto valor genético.

Rio de Janeiro e Alagoas

Os estados confirmaram ocorrências mais recentes, com investigações em andamento. Criadores estão sendo orientados a suspender o uso da ração imediatamente.

Impacto para os criadores e no setor

Prejuízos emocionais e econômicos

A perda de um cavalo vai muito além do valor financeiro. Muitos dos animais mortos eram treinados por anos e tinham valor afetivo incalculável. Além disso, o prejuízo financeiro gira em milhões de reais, afetando também haras, centros de treinamento e eventos equestres.

Pressão por responsabilização

Associações de criadores já se mobilizam para exigir indenizações e revisão das normas de controle sanitário. A Confederação Nacional dos Criadores de Cavalos pretende acionar judicialmente a fabricante.

Posicionamento da empresa e reação judicial

Defesa da Nutratta

A Nutratta nega, até o momento, responsabilidade direta. Em nota, a empresa afirmou que realiza testes laboratoriais regularmente e que está colaborando com as investigações. No entanto, o MAPA identificou falhas na rastreabilidade de ingredientes.

Liminar liberando parte da produção

Apesar da interdição da ração para equinos, uma liminar judicial liberou a produção da Nutratta para outros animais, como bovinos e suínos. O MAPA recorreu da decisão e defende o bloqueio integral da fábrica até que a segurança esteja garantida.

Como identificar rações contaminadas

Atenção à embalagem

Criadores devem observar a data de fabricação, lote e integridade do saco. Produtos do período de abril a junho de 2025 estão sob suspeita.

Monitoramento dos animais

Sinais clínicos como apatia, andar cambaleante, olhos amarelados ou falta de coordenação devem ser motivos de alerta. Ao identificar sintomas, o ideal é suspender o uso do produto e procurar atendimento veterinário imediatamente.

Medidas em debate para evitar novas tragédias

Reformulação das regras de fiscalização

Especialistas propõem que os fabricantes sejam obrigados a realizar laudos toxicológicos periódicos, inclusive com análise para alcaloides vegetais. Hoje, a legislação exige apenas testes microbiológicos e nutricionais em alguns casos.

Maior transparência na cadeia de suprimento

Uma das hipóteses investigadas é a contaminação na origem, com ingredientes vegetais adquiridos de fornecedores sem certificação de qualidade. A falta de rastreabilidade permitiu que o produto contaminado fosse amplamente distribuído sem alerta.

Casos similares no passado e importância da vigilância

Embora este seja um dos maiores episódios de intoxicação de cavalos registrados no Brasil, não é o primeiro. Em 2019, aves e suínos foram vítimas de rações contaminadas por micotoxinas, também com origem vegetal. Esses casos reforçam a necessidade de mecanismos preventivos mais eficazes.

Orientações do MAPA aos criadores

O Ministério recomenda que os criadores:

  • Interrompam imediatamente o uso de qualquer produto da Nutratta destinado a equinos;
  • Guardem as embalagens e notas fiscais para possível ressarcimento;
  • Notifiquem mortes ou sintomas em cavalos pelo canal oficial do Sistema de Vigilância Agropecuária;
  • Encaminhem amostras da ração suspeita para análise laboratorial.

Considerações finais

A tragédia que vitimou 245 cavalos nos últimos dois meses deixa um alerta importante: a segurança alimentar animal exige rigor, fiscalização e responsabilidade por parte da indústria. O caso expôs vulnerabilidades no sistema e trouxe sofrimento a centenas de famílias do setor agropecuário. Cabe agora às autoridades reforçar os mecanismos de controle e garantir que algo assim jamais se repita.