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Pinóquio antes da Disney conheça a versão original italiana do boneco de madeira

Pinóquio é um dos personagens mais conhecidos da literatura mundial, mas também um dos mais mal compreendidos. Para grande parte do público, o nome remete automaticamente ao clássico filme de animação da Disney, lançado em 1940, no qual uma marionete ingênua tem o nariz crescendo sempre que mente. No entanto, essa imagem suavizada está longe de representar a complexidade do personagem criado pelo escritor italiano Carlo Collodi no final do século 19.

A obra original, intitulada As Aventuras de Pinóquio, é marcada por contradições, críticas sociais, episódios violentos e um tom sombrio que surpreende leitores acostumados às versões infantis mais doces. Muito mais do que um conto moral para crianças, o livro é um retrato profundo da Itália recém-unificada, assolada pela pobreza e pela instabilidade social.

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A versão original de Pinóquio está longe da ingenuidade

Diferentemente da adaptação cinematográfica, Pinóquio não é apenas um boneco distraído que aprende lições básicas de honestidade. Na narrativa de Collodi, ele é impulsivo, desobediente, irônico e, muitas vezes, cruel. Ao longo da história, o personagem toma decisões erradas, sofre punições severas e enfrenta consequências reais por seus atos.

Um protagonista cheio de falhas humanas

Pinóquio mente, rouba, foge da escola, desobedece Gepeto e frequentemente ignora conselhos. Ainda assim, não é um vilão. Sua humanidade se revela justamente na capacidade de errar, reconhecer suas falhas e amadurecer aos poucos. Essa construção psicológica torna o personagem mais próximo do leitor adulto do que da criança idealizada apresentada nas animações.

Violência e sofrimento como parte da narrativa

Algumas cenas do livro original são chocantes até para os padrões atuais. Em um dos episódios mais conhecidos, Pinóquio adormece próximo a um braseiro e acaba queimando os pés, ficando mutilado. Em outro momento, ele é enforcado pela Raposa e pelo Gato, que tentam roubá-lo. Essas passagens foram suprimidas ou suavizadas nas adaptações posteriores, mas fazem parte essencial da obra de Collodi.

As origens de As Aventuras de Pinóquio

Carlo Collodi, pseudônimo de Carlo Lorenzini, nasceu em Florença em 1826. Filho de um cozinheiro que trabalhava para uma família aristocrática, viveu de perto as desigualdades sociais de sua época. Antes de se dedicar à literatura infantil, Collodi foi jornalista, satirista e participante ativo das guerras de independência da Itália.

A publicação em capítulos e o final interrompido

Em 1881, os primeiros capítulos de História de uma Marionete começaram a ser publicados no Giornale per i Bambini, um jornal voltado ao público infantil. A ideia inicial de Collodi era encerrar a narrativa de forma trágica no capítulo 15, com a morte de Pinóquio após ser enforcado.

Esse desfecho funcionaria como uma lição moral dura: quem não se comporta corretamente paga um preço alto. No entanto, a reação dos jovens leitores foi imediata. Cartas enviadas ao jornal pediam a continuação da história, forçando o autor a retomar a narrativa e dar um novo rumo ao personagem.

Um sucesso que veio após a morte do autor

Embora a obra tenha sido bem recebida, o reconhecimento internacional só se consolidou depois da morte de Collodi, em 1890. Com o passar dos anos, As Aventuras de Pinóquio se tornou um dos livros mais traduzidos do mundo, atravessando culturas e gerações.

Um retrato da Itália do século 19

A história de Pinóquio não pode ser separada do contexto histórico em que foi escrita. A Itália havia se unificado recentemente e enfrentava sérios problemas sociais, como pobreza extrema, desemprego e falta de acesso à educação.

Pobreza, trabalho e amadurecimento

Gepeto, no livro original, é um carpinteiro miserável que passa fome. Sua condição reflete a realidade de milhões de italianos da época. Pinóquio, por sua vez, precisa aprender que diversão e liberdade têm limites, e que o trabalho é uma necessidade para sobreviver.

Esse processo de amadurecimento é central na narrativa. Ao longo de suas aventuras, o boneco entende que crescer não significa apenas se tornar humano fisicamente, mas assumir responsabilidades.

Temas universais que atravessam gerações

Apesar de profundamente enraizada no contexto italiano, a obra aborda temas universais, como a dificuldade de se tornar adulto, o conflito entre desejo e obrigação e as consequências das escolhas individuais. Essa combinação explica por que Pinóquio continua atual mais de um século depois.

Diferenças marcantes entre o livro e a Disney

A adaptação da Disney foi responsável por popularizar Pinóquio globalmente, mas também alterou profundamente a essência da história.

O Grilo Falante e a consciência silenciada

No filme, o Grilo Falante é a consciência permanente do protagonista. No livro, porém, ele é morto logo no início, quando Pinóquio o esmaga contra a parede por não querer ouvir seus conselhos. O personagem retorna apenas como um espírito, algo impensável para os padrões das animações infantis do século 20.

A Fada Azul e o uso do sofrimento emocional

Outra diferença significativa está na figura da Fada Azul. Na obra original, ela manipula emocionalmente Pinóquio, fazendo-o acreditar que morreu por culpa dele. A mistura de humor, culpa e morte é recorrente no livro e reforça seu tom ambíguo.

Episódios e personagens esquecidos

Diversas aventuras e personagens presentes no romance nunca chegaram às telas. Isso contribuiu para a falsa percepção de que a história de Pinóquio se resume ao que foi mostrado no cinema, quando, na verdade, o livro é muito mais extenso, complexo e provocador.

Por que reler Pinóquio hoje?

Revisitar As Aventuras de Pinóquio é uma oportunidade de compreender melhor não apenas um clássico da literatura, mas também a sociedade que o produziu. A obra desafia a ideia de que histórias infantis devem ser sempre leves e demonstra como a literatura pode dialogar com temas difíceis sem perder seu valor artístico.

Ao ir além da versão da Disney, o leitor descobre um Pinóquio mais humano, contraditório e próximo da realidade. Um personagem que erra, sofre, aprende e, justamente por isso, permanece relevante.