
Pílula sem princípio ativo pode causar efeitos mesmo quando paciente sabe que é placebo, aponta estudo
Uma cápsula sem princípio ativo pode parecer incapaz de provocar qualquer alteração no organismo. No entanto, pesquisas sobre o efeito placebo mostram que a relação entre cérebro, expectativas e corpo é mais complexa.
Um estudo realizado na Itália investigou justamente essa questão. Durante três semanas, 90 adultos mais velhos e saudáveis receberam cápsulas inertes. Parte deles sabia desde o início que estava tomando um placebo.
Mesmo assim, esse grupo apresentou mudanças em alguns testes de estresse, memória de curto prazo e desempenho físico.
Leia mais:
Cobra recém-descoberta na Nova Guiné recebe nome em homenagem a Slash, do Guns N’ Roses
O que é o efeito placebo
O efeito placebo ocorre quando uma pessoa apresenta mudanças em sintomas ou determinados indicadores de saúde após receber uma intervenção sem ação farmacológica específica.
Placebo não é simplesmente “imaginação”
O fenômeno envolve diferentes processos. Expectativas, experiências anteriores, ambiente e o próprio ritual de um tratamento podem influenciar a maneira como o cérebro interpreta dor, fadiga, estresse e outras sensações.
Isso não significa que acreditar em uma melhora seja suficiente para curar uma doença. O efeito placebo possui limitações e não substitui medicamentos comprovadamente eficazes.
Estudo italiano avaliou 90 adultos
Os pesquisadores dividiram os 90 voluntários em três grupos para comparar diferentes situações.
Três grupos participaram da pesquisa
Um grupo não recebeu nenhuma intervenção. Outro tomou cápsulas de placebo e foi informado de que elas poderiam contribuir para melhorar o funcionamento do organismo.
O terceiro grupo recebeu as mesmas cápsulas, mas sabia claramente que elas não continham nenhum princípio ativo.
Essa divisão permitiu avaliar se determinadas respostas poderiam ocorrer mesmo quando os participantes sabiam que estavam tomando placebo.
Participantes que conheciam o placebo também melhoraram
Após três semanas, os pesquisadores encontraram diferenças em algumas avaliações.
Estresse apresentou redução
Os participantes que sabiam estar tomando placebo apresentaram redução nos níveis de estresse em comparação com o grupo que não recebeu intervenção.
O resultado chama atenção porque mostra que o efeito placebo não depende necessariamente da crença de que a pessoa recebeu um medicamento verdadeiro.
Desempenho físico também mudou
Os dois grupos que receberam as cápsulas apresentaram melhora no desempenho físico.
Entre os participantes que acreditavam receber uma substância ativa, o aumento foi de aproximadamente 7%. Já no grupo que sabia estar tomando placebo, a melhora chegou a 9,2%.
Os números, porém, não significam que o placebo seja superior a tratamentos comprovados.
Testes de memória tiveram resultados variados
As avaliações cognitivas apresentaram resultados diferentes conforme o teste aplicado.
Melhorias apareceram nos dois grupos
Entre os participantes que acreditavam que poderiam receber uma substância ativa, os ganhos ficaram entre 12,6% e 14,6%.
Já aqueles que sabiam estar tomando placebo apresentaram melhorias entre 6,9% e 21,5%.
A variação indica que não houve uma melhora uniforme da memória e que os resultados precisam ser interpretados com cautela.
O que é um placebo de rótulo aberto
O modelo utilizado com o terceiro grupo é conhecido como placebo de rótulo aberto, ou open-label placebo.
O paciente sabe que não existe princípio ativo
Nos estudos tradicionais, a pessoa geralmente não sabe se recebeu um medicamento ou um placebo.
No modelo de rótulo aberto, ela recebe a informação de que a cápsula não contém princípio ativo. Ainda assim, os pesquisadores investigam se o ritual do tratamento e outros fatores podem produzir alguma resposta.
Por que esse modelo interessa à ciência
A estratégia permite estudar possíveis efeitos do placebo sem esconder informações do paciente.
Isso também ajuda a investigar se elementos como rotina, expectativa e atenção aos próprios sintomas podem influenciar determinadas respostas.
Por que uma cápsula inerte pode produzir efeitos
Ainda não existe uma explicação única para todos os mecanismos envolvidos.
Expectativas e rotina podem influenciar
Mesmo sabendo que a cápsula não contém medicamento, participar de uma rotina de tratamento pode alterar a atenção dada ao próprio corpo e a maneira como determinados sintomas são percebidos.
O cérebro também participa diretamente do processamento de dor, estresse, fadiga e outras sensações.
Placebo pode substituir um tratamento?
Não.
O fenômeno possui limitações
O efeito placebo pode ser mais relevante em sintomas relacionados à percepção e ao processamento cerebral, como dor, fadiga, náusea e estresse.
Isso não significa que uma cápsula sem princípio ativo consiga eliminar uma infecção, tratar um tumor ou corrigir uma alteração que exige tratamento médico.
Sintomas não são o mesmo que doenças
Uma pessoa pode perceber melhora em determinado sintoma sem que a causa do problema tenha sido eliminada.
Por isso, o efeito placebo não deve ser usado como motivo para abandonar medicamentos ou tratamentos prescritos.
Outras pesquisas também estudam o placebo de rótulo aberto
O estudo italiano faz parte de uma área de pesquisa que vem sendo investigada por outros cientistas.
Uma revisão publicada em 2025 analisou 60 ensaios clínicos randomizados sobre placebos de rótulo aberto e encontrou efeitos positivos pequenos em diferentes resultados de saúde.
Entretanto, os efeitos foram mais consistentes em algumas avaliações feitas pelos próprios participantes do que em determinadas medidas objetivas.
O estudo possui limitações
Apesar dos resultados interessantes, a pesquisa não permite conclusões definitivas.
Número de participantes foi pequeno
Foram apenas 90 voluntários, o que indica a necessidade de estudos maiores para verificar se os resultados se repetem em outras populações.
A pesquisa durou apenas três semanas
Também não é possível saber se as mudanças observadas permaneceriam durante períodos mais longos.
Participantes eram adultos mais velhos e saudáveis
Como o estudo envolveu esse grupo específico, os resultados não podem ser automaticamente aplicados a pessoas de outras idades ou com diferentes condições de saúde.
O efeito nocebo funciona no sentido contrário
O chamado efeito nocebo está relacionado a expectativas negativas que podem aumentar a percepção de determinados sintomas ou desconfortos.
Sintomas podem ser reais
Isso não significa que a pessoa esteja inventando o que sente. Dor, fadiga e mal-estar podem ser experiências reais, mesmo quando fatores psicológicos participam de seu processamento.
O que os pesquisadores ainda querem descobrir
Os resultados levantam uma questão importante: seria possível aproveitar os mecanismos do placebo sem enganar o paciente?
Placebos de rótulo aberto podem ajudar
Esse modelo permite estudar o fenômeno mantendo a transparência. O paciente sabe que não existe princípio ativo, mas os pesquisadores conseguem observar se o contexto terapêutico produz alguma resposta.
Mais estudos serão necessários
Pesquisas maiores e mais longas podem ajudar a descobrir quais sintomas respondem melhor ao placebo, quais mecanismos estão envolvidos e quais pessoas apresentam maior probabilidade de responder.
O que o estudo realmente mostra
A pesquisa indica que saber que uma cápsula não contém princípio ativo não necessariamente impede a ocorrência de efeitos associados ao placebo.
Os participantes que tinham conhecimento sobre o placebo apresentaram mudanças em algumas avaliações de estresse, memória e desempenho físico.
Isso não significa que uma cápsula vazia possa substituir medicamentos ou curar doenças. O resultado mostra, principalmente, que o contexto de um tratamento pode influenciar determinadas respostas do organismo mesmo quando a pessoa sabe que não está recebendo um medicamento ativo.
A descoberta ajuda a ampliar a compreensão sobre a interação entre cérebro, expectativas e corpo e pode contribuir para futuras estratégias terapêuticas mais transparentes.
