
Personalidade pode mudar muito mais ao longo da vida, revela estudo
A ideia de que a personalidade praticamente deixa de mudar depois da juventude pode estar equivocada. Um estudo publicado na revista Communications Psychology mostrou que características consideradas marcantes da personalidade continuam se transformando ao longo da vida adulta e também na velhice.
A pesquisa analisou diferentes gerações e comparou aquilo que as pessoas imaginavam sobre suas próprias mudanças com dados coletados ao longo de vários anos. Os resultados indicam que a personalidade apresenta tanto estabilidade quanto capacidade de transformação.
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Estudo analisou milhares de pessoas
Para investigar como a personalidade muda com o passar dos anos, os pesquisadores realizaram duas etapas de análise.
Primeiro, 887 adultos dos Estados Unidos avaliaram quanto acreditavam que suas características pessoais poderiam mudar entre os 15 e os 90 anos.
Depois, os pesquisadores compararam essas percepções com dados reais de 166.971 pessoas, reunidos em oito estudos longitudinais realizados em países ocidentais.
A estratégia permitiu verificar uma diferença importante entre o que as pessoas imaginavam e o que os dados científicos mostravam sobre o desenvolvimento da personalidade.
Os cinco grandes traços da personalidade
A pesquisa utilizou o modelo conhecido como Cinco Grandes traços de personalidade, uma das principais referências da psicologia para estudar diferenças individuais.
Abertura
Está relacionada à curiosidade, criatividade, imaginação e interesse por novas experiências.
Neuroticismo
Envolve a tendência de experimentar emoções negativas, como insegurança, preocupação e instabilidade emocional.
Extroversão
Está associada à sociabilidade, energia, interação com outras pessoas e busca por estímulos sociais.
Conscienciosidade
Relaciona-se à organização, disciplina, responsabilidade e capacidade de manter objetivos.
Amabilidade
Envolve empatia, cooperação, consideração pelos outros e disposição para manter relações harmoniosas.
Alguns traços diminuem e outros aumentam
Os resultados mostraram tendências diferentes entre os cinco fatores.
Com o avanço da idade, abertura, neuroticismo e extroversão tendem a diminuir. Por outro lado, conscienciosidade e amabilidade tendem a aumentar.
Isso significa que, em média, as pessoas podem se tornar mais organizadas, responsáveis e cooperativas ao longo dos anos. Ao mesmo tempo, podem apresentar menor tendência à instabilidade emocional e menor busca por determinados estímulos sociais.
Essas conclusões, porém, representam médias observadas em grandes grupos. Elas não permitem prever exatamente como uma pessoa específica irá mudar.
Pessoas subestimam o quanto podem mudar
Um dos achados mais interessantes apareceu quando os pesquisadores compararam as expectativas dos participantes com os dados reais.
Os adultos reconheciam que a personalidade poderia mudar, mas subestimavam a intensidade dessas transformações.
Em outras palavras, as pessoas sabem que não serão exatamente iguais para sempre, mas geralmente imaginam que as mudanças serão menores do que realmente podem ser.
Isso ajuda a explicar por que alguém pode olhar para fotografias, mensagens ou lembranças de décadas atrás e perceber diferenças importantes na própria maneira de pensar, agir e se relacionar.
Personalidade não muda da mesma forma para todos
Apesar das tendências gerais, os pesquisadores reforçam que as trajetórias individuais podem ser bastante diferentes.
Duas pessoas com a mesma idade podem apresentar mudanças completamente distintas. Enquanto uma pode se tornar mais organizada e tranquila, outra pode manter características semelhantes às que apresentava décadas antes.
Por isso, os resultados não devem ser utilizados como uma espécie de previsão individual.
Estabilidade e mudança coexistem
A personalidade não é totalmente fixa, mas também não é completamente instável.
Algumas características permanecem relativamente consistentes quando as pessoas são comparadas entre si. Ao mesmo tempo, os níveis desses traços podem mudar dentro do próprio indivíduo ao longo dos anos.
Essa combinação de estabilidade e transformação é importante para compreender o desenvolvimento da personalidade.
Experiências de vida podem acompanhar as transformações
A personalidade está inserida em um contexto mais amplo. Relações sociais, responsabilidades, ambiente, acontecimentos importantes e diferentes fases da vida podem acompanhar mudanças na forma como uma pessoa se comporta.
No entanto, o estudo não permite afirmar que determinado acontecimento seja responsável por uma mudança específica em cada indivíduo.
As transformações podem acontecer gradualmente, acumulando-se durante anos.
É possível mudar quem somos?
Os resultados sugerem que a personalidade possui mais flexibilidade do que muitas pessoas imaginam.
Isso não significa que alguém consiga escolher uma nova personalidade e modificá-la rapidamente. As mudanças observadas pela ciência acontecem, em geral, de maneira gradual e variam entre os indivíduos.
Por isso, frases como “eu sou assim e nunca vou mudar” podem ser mais limitantes do que parecem.
Uma pessoa que se considera extremamente impulsiva, desorganizada ou pouco sociável em determinada fase da vida não necessariamente manterá exatamente o mesmo perfil décadas depois.
O estudo tem limitações
Apesar dos resultados relevantes, a pesquisa possui limitações.
Os estudos longitudinais analisados se concentraram principalmente em populações de países ocidentais. Portanto, os resultados podem não representar perfeitamente todas as culturas e sociedades.
Além disso, médias de grandes grupos não determinam o comportamento de cada pessoa. A trajetória individual pode ser muito diferente da tendência observada na pesquisa.
O que a pesquisa revela sobre a personalidade?
A principal conclusão é que a personalidade humana não deve ser encarada como algo completamente fixo depois da juventude.
Os dados mostram que os cinco grandes traços podem continuar se transformando durante a vida adulta e a velhice. Em grandes grupos, essas mudanças podem alcançar uma magnitude significativa.
Ao mesmo tempo, isso não significa que uma pessoa possa se tornar completamente diferente ou escolher livremente qualquer característica que deseja desenvolver.
A pesquisa aponta para uma visão mais equilibrada: a personalidade apresenta estabilidade, mas também pode mudar ao longo da vida.
Assim, quem uma pessoa é aos 20 anos não precisa ser exatamente quem ela será aos 40, 60 ou 80. O passar do tempo pode alterar a maneira como alguém pensa, sente, se relaciona e enfrenta diferentes situações.
