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Paracetamol é seguro na gravidez e não causa autismo, afirmam especialistas

Durante a gestação, muitas mulheres evitam medicamentos por medo de prejudicar o bebê — especialmente após rumores que relacionaram o uso de paracetamol ao risco de autismo e TDAH em crianças. No entanto, especialistas em saúde reforçam que o medicamento continua sendo considerado seguro quando usado com orientação médica.

Pesquisas recentes, incluindo um estudo de grande escala publicado na JAMA, descartaram qualquer relação direta entre o uso de paracetamol na gravidez e o desenvolvimento de transtornos do espectro autista. A conclusão é apoiada por entidades internacionais de saúde, que ressaltam a importância de evitar alarmismos e reforçar o uso racional do remédio.

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O que é o paracetamol e por que é usado durante a gestação

Um dos medicamentos mais prescritos

O paracetamol, também conhecido como acetaminofeno, é um analgésico e antipirético usado para aliviar dores leves a moderadas e reduzir febre. É um dos medicamentos mais comuns em todo o mundo, presente em milhões de prescrições médicas.

Na gravidez, é frequentemente indicado porque apresenta menor risco em comparação com outros analgésicos, como os anti-inflamatórios não esteroides, que podem causar complicações fetais em determinadas fases da gestação.

Uso com segurança

Embora seja considerado seguro, o paracetamol deve ser usado de forma controlada, respeitando a dose máxima diária e evitando o consumo prolongado sem orientação médica. O uso excessivo pode causar danos ao fígado, tanto em gestantes quanto em qualquer outro paciente.

Profissionais de saúde recomendam utilizar o medicamento apenas quando necessário e na menor dose eficaz para aliviar os sintomas.

A origem da polêmica: estudos antigos e interpretações equivocadas

paracetamol
Imagem – Bestofweb/Canva

Pesquisas observacionais geraram dúvidas

Nos últimos anos, alguns estudos observacionais sugeriram uma possível associação entre o uso de paracetamol na gravidez e um aumento de casos de autismo e déficit de atenção (TDAH) nas crianças. No entanto, esses estudos apresentavam limitações importantes.

Muitos não conseguiram excluir variáveis de confusão, como predisposição genética, histórico familiar de transtornos neurológicos e condições médicas que exigiram o uso do remédio. Ou seja, o fato de mães que tomaram paracetamol terem filhos com autismo não significa que o medicamento seja o responsável.

Quando correlação não significa causa

A confusão entre correlação e causalidade foi o principal problema nas interpretações. O simples fato de duas coisas ocorrerem juntas não indica que uma cause a outra. Isso é especialmente relevante em estudos observacionais, onde fatores externos podem interferir nos resultados.

Assim, o paracetamol acabou injustamente apontado como um possível vilão, levando gestantes a evitar um medicamento seguro e amplamente estudado.

O novo estudo que esclareceu o debate

Pesquisa com 2,5 milhões de crianças

Um estudo de grande porte publicado em 2025 na revista JAMA analisou dados de mais de 2,5 milhões de crianças na Suécia, nascidas entre 1995 e 2019. O objetivo era investigar se havia relação entre o uso de paracetamol durante a gravidez e o desenvolvimento de autismo, TDAH ou deficiência intelectual.

Para reduzir a influência de fatores genéticos e ambientais, os pesquisadores compararam irmãos nascidos das mesmas mães, sendo que um deles havia sido exposto ao paracetamol e o outro não. O resultado foi claro: não houve aumento significativo de risco para nenhum desses transtornos.

O peso da metodologia científica

Esse tipo de pesquisa, que utiliza comparações entre irmãos, é uma das mais confiáveis para eliminar interferências externas. Ela considera que fatores como ambiente familiar, genética e histórico médico materno são compartilhados, o que reduz o risco de conclusões erradas.

Especialistas destacam que esse trabalho ajuda a corrigir interpretações anteriores e reforça que o medicamento pode continuar sendo utilizado com segurança por gestantes que realmente precisem.

O que dizem os especialistas

Médicos pedem cautela, não proibição

Segundo obstetras e neurologistas entrevistados por veículos de imprensa como a CNN Brasil, não há motivos para pânico. O paracetamol é seguro quando usado sob orientação médica e por períodos curtos.

Os profissionais também alertam para o risco de automedicação e de consumo desnecessário do remédio, lembrando que nenhum medicamento é completamente isento de efeitos adversos.

Posicionamento de entidades de saúde

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) já se manifestaram oficialmente sobre o tema. Ambas reforçaram que não existe evidência científica sólida que relacione o paracetamol ao autismo ou a outros distúrbios neurológicos.

Essas instituições recomendam que o medicamento continue sendo usado como primeira opção para controle de dor e febre durante a gestação, sempre com acompanhamento médico.

O papel das fake news na propagação do medo

A desinformação nas redes sociais

Com o avanço das redes sociais, notícias sobre possíveis riscos de medicamentos se espalham rapidamente, muitas vezes sem base científica. O caso do paracetamol é um exemplo típico de como boatos podem gerar pânico desnecessário entre gestantes.

Informações distorcidas acabam influenciando decisões médicas e levando mulheres a evitar tratamentos importantes, colocando em risco a própria saúde e a do bebê.

Quando o medo vira um problema de saúde pública

Ao deixar de tratar febres altas ou dores intensas por medo de medicamentos, gestantes podem expor o feto a situações muito mais perigosas. A febre materna, por exemplo, é reconhecidamente um fator de risco para complicações no desenvolvimento fetal, algo que o paracetamol ajuda a controlar com segurança.

Diretrizes para o uso seguro do paracetamol durante a gravidez

1. Consultar sempre o médico

Antes de iniciar qualquer tratamento, a gestante deve conversar com seu obstetra. Cada caso é avaliado individualmente, levando em conta o histórico de saúde e o estágio da gravidez.

2. Usar a menor dose eficaz

A recomendação geral é tomar a menor dose que traga alívio, pelo menor tempo possível. A automedicação e o uso contínuo sem prescrição devem ser evitados.

3. Evitar combinações com outros medicamentos

O paracetamol pode estar presente em fórmulas associadas a outros analgésicos ou antigripais. Tomar mais de um remédio com o mesmo componente pode levar à overdose, mesmo sem perceber.

4. Evitar uso prolongado

O uso frequente e prolongado não é recomendado, a menos que indicado por um médico. Casos de dor crônica devem ser avaliados individualmente.

5. Seguir orientações médicas após o parto

Mesmo após o nascimento, é importante seguir as mesmas orientações, especialmente durante o período de amamentação. O paracetamol continua sendo seguro, mas o acompanhamento profissional é essencial.

Considerações finais

O paracetamol continua sendo um dos medicamentos mais seguros e estudados do mundo — e seu uso durante a gravidez, quando orientado por um profissional, não representa risco de autismo ou TDAH para o bebê.

Estudos recentes reforçam a ausência de relação causal entre o medicamento e problemas neurológicos, e as principais entidades de saúde do planeta confirmam sua segurança.

A melhor forma de proteger a gestante e o bebê é equilibrar informação, prudência e orientação médica. O medo, quando baseado em boatos, pode ser mais perigoso do que o próprio remédio.