CuriosidadesNotícias

País símbolo de eficiência é apontado como o mais burocrático da América Latina para empreender

Conhecido por seu ambiente econômico estável e por políticas que favorecem o investimento, o Chile sempre figurou entre os países mais citados como referência em eficiência na América Latina. No entanto, um estudo divulgado em 2025 revelou um dado que pegou o mercado de surpresa: o país é, na verdade, o mais burocrático da região quando o assunto é abrir e manter uma empresa.

A constatação contradiz a percepção de que o Chile é o mais “amigável” para o empreendedor e levanta questionamentos sobre o que está por trás dessa lentidão administrativa. O estudo aponta gargalos estruturais que dificultam o cotidiano de quem deseja empreender e revela como a burocracia ainda é um obstáculo relevante mesmo em países considerados desenvolvidos dentro da América Latina.

Leia Mais:

O que só brasileiros e americanos acham atraente — e o resto do mundo não entende

O estudo que mudou a percepção

O levantamento e a metodologia

O levantamento, realizado pelo Adam Smith Center for Economic Freedom, em parceria com a Florida International University, analisou 21 países, sendo 16 latino-americanos. O objetivo era medir o tempo e o custo administrativo para abrir e manter uma empresa de porte médio.

Foram avaliados indicadores como o número de formulários exigidos, etapas de registro, prazos para autorizações, volume de horas gastas em atividades burocráticas e o nível de digitalização dos processos públicos.

Resultados que surpreenderam

O estudo revelou que o Chile exige cerca de 5.200 horas de trabalho administrativo apenas para abrir uma empresa — mais do que o triplo da média regional, que gira em torno de 1.800 horas. Quando se inclui a manutenção anual do negócio, o número sobe para 5.860 horas, tornando o país o mais burocrático de toda a América Latina.

Na outra ponta do ranking, países como Brasil, Colômbia e México aparecem com tempos menores, resultado de reformas recentes de simplificação e digitalização dos registros comerciais.

A contradição com a reputação chilena

Durante décadas, o Chile foi apontado como um modelo de eficiência e transparência econômica. Reformas estruturais implementadas a partir dos anos 1990 reduziram a intervenção estatal, abriram o mercado e estimularam o investimento estrangeiro.

No entanto, o novo levantamento mostra que, embora o país mantenha estabilidade fiscal e boas práticas macroeconômicas, a burocracia ainda domina os bastidores administrativos — especialmente nas etapas de legalização, licenciamento e manutenção fiscal das empresas.

Por que o Chile é tão burocrático?

Excesso de etapas e formalidades

Abrir uma empresa no Chile envolve múltiplos órgãos governamentais, autorizações municipais e certificados digitais que, muitas vezes, não se comunicam entre si. A fragmentação entre instâncias locais e nacionais torna o processo mais lento, mesmo em um país com forte infraestrutura tecnológica.

Falta de integração entre sistemas públicos

Embora o Chile tenha avançado na digitalização de serviços, muitos deles ainda exigem validações presenciais, assinaturas físicas e registros duplicados. Isso cria gargalos que aumentam o tempo necessário para concluir cada fase do processo.

Regulação rígida e complexa

As leis trabalhistas e tributárias chilenas são consideradas detalhistas e exigem alto grau de conformidade documental. Essa estrutura, embora traga segurança jurídica, aumenta a carga administrativa e obriga as empresas a manter equipes dedicadas apenas ao cumprimento de normas.

Custos indiretos para o empreendedor

A burocracia excessiva não apenas consome tempo, mas também eleva custos operacionais. Cada hora dedicada a questões administrativas representa uma hora a menos para a empresa se concentrar em inovação, marketing e crescimento.

O impacto para o ambiente de negócios

Efeitos sobre o empreendedorismo

O excesso de burocracia desencoraja a formalização de micro e pequenas empresas. Muitos empreendedores acabam optando pela informalidade ou desistem de iniciar o negócio, diante da demora e da complexidade do processo.

Além disso, o peso dos procedimentos administrativos reduz a competitividade das empresas chilenas, especialmente frente a vizinhos que vêm simplificando seus processos, como o Brasil e a Colômbia.

Repercussões para o investimento estrangeiro

Investidores internacionais costumam considerar o tempo e a previsibilidade regulatória antes de decidir onde aplicar recursos. A descoberta de que o Chile demanda mais de 5 mil horas administrativas por ano para manter uma empresa pode afetar a percepção de atratividade do país, ainda que sua economia permaneça estável e segura.

Perda de produtividade

Empresas que gastam milhares de horas por ano em processos burocráticos perdem competitividade. A burocracia reduz produtividade e desvia energia de áreas estratégicas como tecnologia, exportação e desenvolvimento.

A lição para a América Latina

Burocracia como barreira regional

A burocracia é um desafio histórico na América Latina, resultado de sistemas administrativos complexos e legislações fragmentadas. Mesmo países considerados modelos enfrentam dificuldade em simplificar processos e integrar serviços públicos.

O caso chileno evidencia que bons indicadores econômicos não garantem um ambiente de negócios eficiente. Reformas estruturais precisam ser acompanhadas de medidas concretas de desburocratização.

O contraste com o Brasil

Nos últimos anos, o Brasil vem se destacando por medidas como a Rede Nacional para a Simplificação do Registro e Legalização de Empresas e Negócios (REDESIM) e o Balcão Único, que reduziram o tempo médio de abertura de empresas para menos de dois dias em alguns estados.

O contraste com o Chile mostra que o avanço tecnológico e a integração de plataformas podem fazer diferença, mesmo em economias complexas.

Caminhos para o futuro

A América Latina precisa apostar em políticas que reduzam o custo do tempo para empreender. Isso inclui simplificar formulários, eliminar redundâncias e promover a integração digital entre ministérios, prefeituras e agências reguladoras.

Como o Chile pode reverter o quadro

Reformar o sistema de licenciamento

Unificar etapas de licenciamento e reduzir o número de autorizações exigidas pode cortar milhares de horas do processo atual.

Avançar na digitalização real

Transformar o sistema público em um ambiente 100% online, com integração automática de dados, reduziria deslocamentos e o retrabalho causado por falhas em registros manuais.

Fortalecer a cultura de eficiência

O Chile precisa alinhar sua reputação à realidade. Promover auditorias internas, metas de tempo e transparência nos processos administrativos é essencial para recuperar a confiança de empresários e investidores.

Parcerias regionais

Cooperação com outros países latino-americanos que já avançaram em digitalização e simplificação pode acelerar reformas e ajudar a evitar erros recorrentes.

Considerações finais

O resultado do estudo serve como alerta: o Chile, reconhecido por décadas como exemplo de eficiência, enfrenta agora um paradoxo que expõe as fragilidades do modelo administrativo latino-americano. O país lidera o ranking da burocracia para empreender, gastando mais tempo e recursos em trâmites do que qualquer outro da região.

Para mudar essa realidade, será preciso mais do que boas intenções. Reformas estruturais, integração tecnológica e políticas de simplificação efetiva são passos fundamentais. O empreendedor moderno busca agilidade e previsibilidade — e enquanto esses valores não forem prioridade, a burocracia continuará sendo um dos maiores entraves ao desenvolvimento econômico na América Latina.