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Falta compromisso real da moda com o meio ambiente, revela novo estudo

A contradição da moda: discurso verde, prática poluente

Nos últimos anos, o setor da moda adotou um discurso cada vez mais voltado à sustentabilidade. Termos como “eco-friendly”, “slow fashion” e “ESG” ganharam espaço em campanhas publicitárias e relatórios corporativos. No entanto, um levantamento recente mostra que, na prática, o comprometimento das marcas com o meio ambiente ainda é limitado.

Enquanto o consumidor demonstra crescente preocupação com o impacto ambiental das roupas, as empresas seguem com cadeias produtivas opacas, uso intensivo de recursos naturais e baixa transparência sobre seus processos. A disparidade entre o que se anuncia e o que se faz coloca em xeque a credibilidade do discurso sustentável na moda.

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Panorama do impacto ambiental da moda

O peso ambiental da indústria têxtil

A indústria da moda é uma das mais poluentes do planeta. Estima-se que 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis sejam geradas anualmente no mundo. No Brasil, o volume chega a 4 milhões de toneladas por ano, segundo entidades do setor ambiental.

Grande parte desses resíduos não é reciclada nem reaproveitada — apenas uma fração mínima, inferior a 1%, retorna à cadeia produtiva. O restante é destinado a aterros ou incinerado, contribuindo para a liberação de gases poluentes e agravamento da crise climática.

Além disso, a produção de tecidos sintéticos libera microplásticos nos oceanos, enquanto o cultivo do algodão convencional exige grande consumo de água e agrotóxicos. Somados, esses fatores tornam a moda um dos segmentos industriais mais intensivos em recursos naturais e com maior pegada de carbono.

O comportamento do consumidor brasileiro

Apesar dos impactos, o público vem se tornando mais atento às questões ambientais. Pesquisas recentes indicam que nove em cada dez brasileiros afirmam se sentir desconfortáveis ao comprar roupas que prejudiquem o meio ambiente. Esse dado revela que existe uma demanda real por produtos mais sustentáveis — ainda que o preço e a falta de informação limitem as escolhas conscientes.

Falta de transparência e comprometimento real

Um dos principais problemas apontados por especialistas é a ausência de transparência nas cadeias produtivas. Embora várias empresas publiquem relatórios e promessas ambientais, poucas divulgam dados auditados sobre uso de água, emissões de CO₂, origem de matérias-primas ou condições de trabalho.

Um índice nacional de transparência do setor mostrou que a maioria das marcas ainda não divulga informações completas sobre sustentabilidade, e muitas sequer mencionam metas de redução de impacto. Ou seja, o discurso ainda prevalece sobre a prática.

Por que o setor da moda avança tão lentamente

A cultura do fast fashion

O modelo de negócios dominante na moda continua sendo o fast fashion — baseado em coleções rápidas, produção barata e alta rotatividade de produtos. Roupas são usadas poucas vezes antes de serem descartadas, incentivando um consumo impulsivo e descartável.

Estudos internacionais mostram que peças de fast fashion são utilizadas, em média, menos de cinco vezes, enquanto roupas duráveis, de produção lenta, podem ser usadas até cinquenta vezes mais. O resultado é quatro vezes mais emissões de carbono por peça.

Falta de regulação e fiscalização

Outro entrave é a ausência de regras ambientais específicas para o setor têxtil. No Brasil, não há legislação federal que obrigue as marcas a divulgar indicadores de sustentabilidade ou a adotar padrões mínimos de reciclagem. Isso permite que práticas poluentes persistam sem penalidades.

Custo e resistência corporativa

Transformar processos produtivos exige investimento. Tecnologias de baixo impacto, fibras orgânicas, rastreabilidade e certificações elevam os custos, o que faz muitas empresas optarem por ações superficiais de marketing verde (greenwashing) em vez de mudanças estruturais e permanentes.

O dilema entre discurso e prática

A sustentabilidade se tornou uma poderosa ferramenta de marketing. No entanto, quando as promessas não são acompanhadas de resultados concretos, o efeito é inverso: a confiança do consumidor diminui e a imagem das marcas se deteriora.

De acordo com analistas do setor, boa parte das companhias pratica o chamado greenwashing, estratégia que usa o discurso ambiental como fachada para ações pouco efetivas. Isso inclui coleções “verdes” lançadas em meio a linhas de produção massiva e campanhas que omitem dados sobre a origem dos produtos.

A ausência de transparência real sobre indicadores ESG torna difícil medir avanços ou cobrar resultados. Sem métricas padronizadas, auditorias independentes e fiscalização pública, a moda corre o risco de manter o rótulo de sustentável apenas no papel.

Os impactos ambientais, sociais e econômicos

O impacto da moda ultrapassa o meio ambiente. No aspecto social, persistem casos de exploração de trabalho, informalidade e falta de direitos trabalhistas em cadeias de fornecimento. A rastreabilidade precária impede que consumidores saibam quem produziu suas roupas e em quais condições.

Economicamente, o modelo de consumo acelerado gera perdas bilionárias. Estimativas internacionais apontam que US$ 500 bilhões são desperdiçados todos os anos com roupas descartadas prematuramente. Esse volume de perdas mostra o quanto a indústria ainda ignora o potencial da economia circular e do reaproveitamento de materiais.

Caminhos possíveis para uma moda sustentável

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EXCEÇÃO Renner: uma das poucas empresas com boas práticas (Alexandre Battibugli/.)

Práticas empresariais efetivas

Para mudar o cenário, especialistas defendem que as empresas adotem uma estratégia ESG autêntica, com metas verificáveis e relatórios auditados. É essencial reduzir o consumo de água, investir em fibras naturais ou recicladas e dar destino correto aos resíduos têxteis.

A economia circular é outro pilar importante. Ela propõe que o ciclo de vida das roupas seja prolongado por meio de reúso, reciclagem, conserto e upcycling, evitando o descarte precoce.

Mudança no comportamento do consumidor

O consumidor também é parte essencial dessa transformação. Optar por marcas transparentes, roupas duráveis e compras planejadas reduz a pressão sobre o sistema produtivo. A moda consciente não significa deixar de consumir, mas consumir com propósito.

A importância da regulação e das políticas públicas

Governos e órgãos ambientais podem impulsionar avanços ao criar leis específicas para o setor têxtil, exigindo relatórios de impacto, controle de resíduos e rastreabilidade de fornecedores. Sem políticas públicas, a responsabilidade fica limitada à boa vontade corporativa — algo insuficiente para reverter décadas de degradação ambiental.

Considerações finais

O estudo que revelou o baixo comprometimento ambiental da moda expõe uma realidade incômoda: a indústria ainda prefere o discurso à ação. Embora os consumidores demonstrem crescente consciência ecológica, as empresas continuam presas ao modelo de produção em massa, com pouca transparência e alto impacto ambiental.

Para que a moda realmente caminhe rumo à sustentabilidade, será necessário um esforço conjunto entre marcas, governos e consumidores. A responsabilidade ambiental precisa deixar de ser um diferencial e se tornar um compromisso inegociável. Afinal, vestir-se bem não pode significar comprometer o planeta.