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Uso exagerado de inteligência artificial pode afetar o aprendizado, aponta pesquisa

Um alerta que vem da ciência sobre os limites da tecnologia

O uso crescente de ferramentas de inteligência artificial (IA) no cotidiano acadêmico e profissional tem levantado um debate urgente: será que a dependência desses recursos compromete nossa capacidade de aprender? Um estudo recente, conduzido por pesquisadores de universidades renomadas, aponta que sim. O excesso de uso de IAs generativas, como o ChatGPT, pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo, dificultando a consolidação do conhecimento e a autonomia intelectual.

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O que diz a pesquisa sobre IA e aprendizado

Metodologia aplicada

A pesquisa reuniu mais de 50 voluntários, entre estudantes universitários e profissionais de áreas técnicas, para realizar atividades de produção textual ao longo de um período contínuo. Os participantes foram divididos em grupos que utilizaram diferentes métodos para redigir textos: um grupo usou inteligência artificial, outro recorreu a mecanismos de busca convencionais e um terceiro fez o trabalho sem qualquer auxílio digital.

Durante o experimento, os pesquisadores monitoraram as ondas cerebrais dos voluntários por meio de exames eletroencefalográficos e avaliaram o nível de envolvimento cognitivo nas tarefas. O objetivo era identificar como o uso de tecnologias interferia na atividade cerebral e nos resultados dos textos produzidos.

Resultados obtidos

Os resultados indicaram que os participantes que escreveram sem ajuda digital apresentaram maior engajamento cerebral e maior retenção de conteúdo. Já os que utilizaram IA tiveram uma queda significativa na atividade das áreas relacionadas à memória e à formulação crítica de ideias. O uso da IA, embora tenha facilitado a redação em termos de rapidez e estrutura, levou a uma produção com menor participação ativa dos autores.

Além disso, os textos gerados com o auxílio da IA foram, em muitos casos, menos originais e mais padronizados. Os voluntários também apresentaram dificuldade para explicar ou lembrar o conteúdo de seus próprios textos após algum tempo, o que evidencia um processo de aprendizado superficial.

Entenda o conceito de “dívida cognitiva”

O que é e por que é preocupante

A expressão “dívida cognitiva” surgiu no estudo para definir o estado em que o cérebro, ao ser poupado de esforço intelectual constante, passa a funcionar em um regime de baixa exigência. Em outras palavras, quanto mais delegamos tarefas mentais à tecnologia, menos exercitamos nossas habilidades naturais de pensamento, análise e criação.

Essa condição pode se tornar crônica, dificultando o aprendizado contínuo e reduzindo a capacidade de enfrentar desafios intelectuais sem auxílio tecnológico. No longo prazo, isso impacta diretamente o desenvolvimento de estudantes, profissionais e até mesmo a sociedade como um todo.

Exemplo prático

Imagine um estudante que usa uma IA para responder automaticamente a todas as perguntas de suas lições. Embora ele obtenha as respostas corretas e boas notas, seu cérebro não passa pelo processo de raciocínio necessário para assimilar o conteúdo. Assim, ao ser confrontado com questões semelhantes em outro contexto, ele não saberá como resolvê-las sem recorrer novamente à tecnologia.

Especialistas reagem ao estudo

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Imagem – Bestofweb/Canva

Visão de neurocientistas

Para o neurologista Pedro Lacerda, o estudo reforça o que já se suspeitava: a tecnologia, quando mal dosada, pode se tornar uma muleta intelectual. Segundo ele, o cérebro humano é como um músculo que precisa ser estimulado para se manter ativo. A falta de esforço cognitivo, causada pelo uso constante de IA, pode atrofiar habilidades importantes como memória, concentração e senso crítico.

Educadores pedem equilíbrio

Professores também manifestaram preocupação com os resultados. A pedagoga Clara Meireles destaca que a inteligência artificial pode ser uma ferramenta valiosa, mas não deve substituir o esforço do aluno. Para ela, o processo de aprendizagem exige que o estudante enfrente desafios, cometa erros e desenvolva autonomia. “A IA deve ser usada como apoio, não como atalho”, afirma.

Os impactos na educação básica e superior

Risco de superficialidade no ensino

Na educação básica, o uso indiscriminado de IA pode gerar uma geração de alunos com menor capacidade analítica e menos disposição para o pensamento abstrato. Já no ensino superior, o desafio é ainda maior, uma vez que a formação acadêmica exige elaboração própria, pesquisa e crítica — habilidades que podem ser comprometidas se os estudantes dependerem de textos prontos.

Reação das instituições de ensino

Algumas universidades já começaram a revisar seus métodos de avaliação. Em vez de provas escritas ou trabalhos de casa simples, muitas têm adotado debates em sala de aula, exposições orais e atividades que exijam raciocínio em tempo real, justamente para combater a passividade intelectual promovida por soluções automáticas.

A inteligência artificial como aliada, e não substituta

Onde a IA pode ajudar

Apesar das preocupações, especialistas ressaltam que a IA não é vilã. Ferramentas como ChatGPT podem ser úteis para:

  • Sugestões de temas e estruturação de ideias
  • Apoio em revisões ortográficas e gramaticais
  • Organização de argumentos em textos mais complexos

Quando usada com consciência, a IA pode enriquecer o aprendizado ao ampliar a visão do estudante e trazer exemplos que ele talvez não encontrasse sozinho.

Como evitar a dependência

O segredo está no equilíbrio. Veja algumas orientações:

  • Use a IA apenas depois de tentar resolver a tarefa por conta própria
  • Revise e reescreva os textos gerados para incorporar sua própria linguagem
  • Utilize a ferramenta como fonte de consulta, não como autora final
  • Realize exercícios analógicos regularmente, como leitura crítica e escrita à mão

A importância da metacognição

Metacognição é a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento. Alunos que usam IA sem refletir sobre o que estão produzindo perdem uma oportunidade essencial de desenvolver essa habilidade. Quando essa função mental é prejudicada, o aprendizado torna-se mecânico e frágil.

Por isso, educadores recomendam práticas como autoavaliação, questionamentos internos (“o que eu aprendi com isso?”, “qual a lógica por trás dessa resposta?”) e revisão crítica do que foi produzido com o auxílio da tecnologia.

Tendências futuras e responsabilidade compartilhada

O papel das famílias

Pais e responsáveis devem acompanhar o uso da tecnologia por crianças e adolescentes. Estabelecer regras claras, como horários de uso e objetivos pedagógicos, é essencial para evitar o uso indiscriminado de aplicativos baseados em IA.

O dever das plataformas

Empresas desenvolvedoras de inteligência artificial também precisam agir com responsabilidade. A criação de sistemas que incentivem o aprendizado ativo, como sugestões de leitura complementar ou perguntas reflexivas, pode ser uma forma de mitigar os riscos.

Políticas públicas e regulação

Cabe ao poder público criar diretrizes sobre o uso de IA na educação, promovendo campanhas de conscientização e capacitação de professores. A regulamentação deve equilibrar inovação e proteção ao desenvolvimento cognitivo das novas gerações.

Considerações finais

A inteligência artificial trouxe avanços inegáveis para a sociedade e o sistema educacional, mas seu uso sem moderação ou critério pode trazer efeitos colaterais graves. A pesquisa recente alerta para a necessidade de manter a mente ativa e evitar a dependência de soluções automatizadas.

Mais do que simplesmente utilizar a tecnologia, é preciso refletir sobre como ela está moldando a forma como pensamos, aprendemos e interagimos com o conhecimento. O futuro da educação passa por um caminho onde humanos e máquinas devem caminhar juntos — mas com os cérebros humanos ainda no comando.