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Insetos como alimento do futuro enfrentam resistência por custo e repulsa

Nos últimos anos, a busca por fontes alternativas de proteína ganhou espaço no debate sobre segurança alimentar global. Em meio às discussões, os insetos têm se destacado como opção promissora, principalmente por sua eficiência nutricional e impacto ambiental reduzido. No entanto, apesar do entusiasmo de especialistas e de iniciativas crescentes em países da Europa, Ásia e América Latina, o avanço da entomofagia — o consumo de insetos — esbarra em dois obstáculos consideráveis: a repulsa cultural e o custo elevado de produção.

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O que diz a ciência sobre o consumo de insetos

Pesquisas recentes apontam que os insetos reúnem diversos atributos que os tornam candidatos ideais para compor o cardápio do futuro. Além de apresentarem uma composição rica em proteínas, vitaminas e minerais, sua criação demanda menos recursos naturais que a pecuária tradicional. No entanto, uma pesquisa publicada em 2025 destacou que fatores como nojo e preço ainda afastam o consumidor ocidental da ideia de incluir insetos na dieta.

Por que o nojo é uma barreira tão forte?

Especialistas em comportamento alimentar explicam que o nojo não é apenas uma reação instintiva, mas um comportamento aprendido socialmente. Em culturas onde o consumo de insetos nunca foi comum, o simples pensamento em comer grilos ou larvas provoca desconforto. A imagem visual do alimento, sua textura e até o som crocante são gatilhos que impedem a aceitação imediata.

O peso do preço na decisão de consumo

Mesmo com todas as vantagens sustentáveis, os alimentos à base de insetos ainda não são competitivos em termos de preço. A produção ainda depende de estruturas pequenas e processos industriais pouco otimizados, o que encarece os produtos. Em muitos mercados, é mais barato comprar carne bovina do que uma barra de proteína feita de farinha de grilo, por exemplo.

Vantagens nutricionais e ambientais dos insetos

insetos
Imagem – Bestofweb/Freepik

Alta densidade proteica

Insetos como grilos, tenébrios (larvas de besouro) e gafanhotos possuem níveis elevados de proteína, comparáveis ou até superiores aos da carne vermelha. Além disso, apresentam aminoácidos essenciais, fibras e lipídios saudáveis.

Sustentabilidade na produção

A criação de insetos consome menos água, menos terra e emite significativamente menos gases de efeito estufa. A taxa de conversão alimentar é muito mais eficiente: para produzir 1 kg de proteína, os insetos precisam de muito menos ração do que bois ou frangos.

Ciclo reprodutivo acelerado

Insetos se reproduzem rapidamente e em larga escala. Isso permite a criação em ambientes pequenos e controlados, como estufas urbanas, favorecendo produções descentralizadas e até locais.

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Tradições alimentares fortes

No Brasil, apesar da diversidade alimentar, o consumo de insetos ainda é restrito a comunidades indígenas ou eventos pontuais de gastronomia experimental. A forte presença de carnes tradicionais como bovina e de frango, aliada ao acesso fácil a outras fontes proteicas vegetais, dificulta a aceitação de alternativas menos convencionais.

Falta de incentivo governamental e industrial

O setor de insetos comestíveis carece de incentivos fiscais, apoio à pesquisa e regulamentações claras que estimulem o crescimento do mercado. A ausência de uma cadeia produtiva estruturada e de padrões sanitários definidos dificulta a entrada dos produtos em larga escala nos supermercados e restaurantes.

Comparação com outras proteínas alternativas

Produtos vegetais têm maior aceitação

Burgers à base de soja, ervilha e cogumelos conseguiram maior inserção no mercado ocidental justamente por se parecerem com alimentos já conhecidos. Eles não provocam o mesmo choque visual ou psicológico que a imagem de um inseto inteiro pode causar.

Insetos em forma de ingrediente ajudam na aceitação

Alimentos que utilizam insetos como base, mas sem que eles apareçam visualmente — como farinhas, pós ou extratos — são mais bem aceitos. Isso mostra que a rejeição não está apenas no sabor ou na textura, mas também no fator visual e simbólico.

Entomofagia pelo mundo

Tradição em vários continentes

Mais de 2 bilhões de pessoas ao redor do planeta já consomem insetos regularmente, especialmente em países da África, sudeste asiático e América Latina. Em algumas regiões, larvas, formigas e grilos fazem parte da culinária tradicional há séculos.

Europa e América do Norte avançam em regulamentação

Alguns países europeus já aprovaram produtos com insetos para consumo humano. Grilos em pó, snacks de larvas e barras energéticas com proteína de tenébrio são cada vez mais comuns, especialmente em lojas de produtos naturais e feiras de inovação alimentar.

Caminhos possíveis para superar as barreiras

Reeducação alimentar e campanhas de informação

O nojo não é imutável. Assim como o sushi, que causava estranhamento no Ocidente nos anos 80 e hoje é comum, os insetos também podem conquistar espaço com o tempo. Campanhas educativas sobre seus benefícios e degustações guiadas podem mudar percepções.

Avanços tecnológicos para baratear custos

Com o aumento dos investimentos em tecnologia agrícola, é possível que os custos de produção caiam nos próximos anos. Criações automatizadas, uso de inteligência artificial para controle de temperatura e umidade, além de sistemas verticais de cultivo, já estão sendo testados.

Regulamentação e segurança alimentar

A criação de um marco legal que defina padrões para produção, higiene, armazenamento e comercialização de alimentos à base de insetos é essencial para garantir a segurança do consumidor e estimular o surgimento de empresas do setor.

O que esperar nos próximos anos

Especialistas projetam que o mercado de insetos comestíveis deve crescer globalmente nos próximos dez anos. No entanto, sua popularização dependerá diretamente de três fatores: queda de preços, melhorias no sabor e textura dos produtos, e aceitação cultural.

Primeiros passos devem vir de produtos processados

É mais provável que os insetos entrem no mercado por meio de alimentos ultraprocessados — como barrinhas proteicas, massas e molhos enriquecidos com farinha de inseto — do que como pratos com insetos inteiros.

Culinária gourmet pode abrir portas

Chefs de cozinha já começam a incluir insetos em pratos sofisticados, transformando o exótico em luxo. Isso pode ajudar a quebrar preconceitos e a atrair um público curioso e disposto a experimentar novidades.

Considerações finais

Os insetos têm tudo para ocupar um papel relevante na alimentação do futuro. São nutritivos, sustentáveis e versáteis. No entanto, o desafio para sua aceitação vai além da nutrição ou do impacto ambiental. Envolve cultura, psicologia, mercado e acesso. A mudança de hábitos alimentares é lenta, mas possível — especialmente em tempos de crise ambiental e busca por soluções inovadoras.

Ainda que comer um grilo assado hoje cause estranhamento, não é impossível que, em alguns anos, a farinha de insetos esteja presente nas massas, bolos e pães do dia a dia. Como toda transformação alimentar, a inclusão dos insetos depende de persistência, educação e adaptação — ingredientes fundamentais para a construção de um futuro mais equilibrado e consciente.