
Multitarefa e produtividade: o mito de fazer tudo ao mesmo tempo e seus efeitos no desempenho
Em um mundo cada vez mais acelerado, o ideal de “fazer mais em menos tempo” se tornou um objetivo quase universal. Responder e-mails enquanto participa de uma reunião, editar documentos com o celular vibrando a cada notificação ou alternar entre várias abas do navegador se tornou rotina. Essa dinâmica, conhecida como multitarefa, é frequentemente associada à alta produtividade — mas as evidências mostram o oposto.
Estudos apontam que o cérebro humano não foi projetado para realizar tarefas complexas simultaneamente. O que chamamos de “multitarefa” é, na verdade, uma sequência de rápidas trocas de atenção, que exigem energia cognitiva e diminuem o rendimento. Em vez de aumentar a eficiência, essa prática tende a elevar o nível de estresse, prejudicar a concentração e gerar erros evitáveis.
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O mito da alta produtividade
O valor simbólico da pressa
No ambiente corporativo moderno, produtividade virou sinônimo de visibilidade. Ser rápido, disponível e multitarefa é, muitas vezes, interpretado como sinônimo de competência. Essa cultura da urgência cria uma ilusão de eficiência: a sensação de estar sempre ocupado dá a falsa impressão de progresso, mesmo quando o resultado final não melhora.
A origem da confusão
Muitos acreditam que conseguem realizar várias tarefas simultaneamente. No entanto, o cérebro humano tem um limite claro para o processamento de informações. Em atividades simples — como ouvir música enquanto se caminha — é possível manter a execução paralela. Já em ações que exigem raciocínio, tomada de decisão e criatividade, as trocas constantes de foco provocam perda de desempenho e fadiga mental.
O custo invisível das interrupções
A cada troca de tarefa, o cérebro precisa de tempo para se adaptar ao novo contexto. Essa transição, que parece rápida, consome segundos preciosos e, acumulada ao longo do dia, reduz a capacidade produtiva em até 40%. O resultado é um ciclo de esforço contínuo com menor retorno real.
O que a ciência diz sobre a multitarefa

Foco dividido é foco reduzido
Pesquisas em neurociência mostram que o córtex pré-frontal — responsável por planejar, decidir e concentrar — só consegue gerenciar uma tarefa complexa de cada vez. Quando tentamos lidar com múltiplas atividades simultaneamente, o cérebro alterna o foco de forma tão rápida que cria a ilusão de simultaneidade.
Essa alternância constante provoca micropausas cognitivas que, repetidas centenas de vezes, drenam energia e atenção. Por isso, pessoas que trabalham de forma multitarefa frequentemente relatam exaustão e dificuldade de manter a concentração mesmo em tarefas simples.
Erros e memória comprometida
Outro efeito direto da multitarefa é o aumento da taxa de erros. Estudos mostram que quem alterna frequentemente entre tarefas tem mais dificuldade em reter informações e tende a cometer lapsos de julgamento. Isso ocorre porque, ao trocar de foco, o cérebro interrompe o processo de consolidação da memória de curto prazo, afetando a qualidade do aprendizado.
O impacto emocional
Além da queda de desempenho, a multitarefa está associada a sintomas de estresse e ansiedade. A sensação de estar sempre “atrasado” ou de não conseguir terminar nada aumenta a frustração. O corpo reage liberando cortisol, o hormônio do estresse, que interfere na concentração e até no sono.
A cultura da multitarefa no trabalho
O ambiente digital e suas armadilhas
A digitalização ampliou as distrações. Aplicativos, e-mails, chats corporativos e notificações disputam a atenção o tempo todo. Essa sobrecarga de estímulos cria um cenário em que é quase impossível manter o foco por longos períodos.
Para muitas empresas, estar sempre disponível é visto como prova de comprometimento. Porém, a prática tem custo alto: profissionais sobrecarregados, aumento de erros e queda na qualidade das entregas.
O preço da conectividade constante
Em equipes que dependem de comunicação rápida, a multitarefa se tornou um comportamento quase automático. Reuniões virtuais enquanto se responde mensagens, relatórios feitos com dezenas de abas abertas — tudo isso gera a sensação de produtividade, mas reduz a profundidade do pensamento.
A longo prazo, esse modelo favorece decisões apressadas e diminui a capacidade de reflexão estratégica. É o oposto do que se espera de ambientes inovadores.
Mulheres e sobrecarga multitarefa
Pesquisas apontam que mulheres sentem com mais intensidade o peso da multitarefa. Além do trabalho formal, muitas acumulam responsabilidades domésticas e familiares, o que aumenta as interrupções diárias e reduz o tempo de recuperação mental. Essa dupla jornada contribui para índices mais altos de estresse e burnout.
Quando a multitarefa pode funcionar
Tarefas automáticas e repetitivas
A multitarefa não é sempre um vilão. Ela funciona em contextos simples e automáticos, como ouvir um podcast enquanto se faz uma caminhada ou revisar e-mails leves durante um voo. Nesses casos, o esforço cognitivo é baixo e o cérebro consegue dividir atenção sem grandes perdas.
Alternância planejada
Outra forma positiva é o multifoco programado, quando o profissional divide o dia em blocos e intercala tipos de tarefas. Essa prática ajuda a variar estímulos sem causar sobrecarga, mantendo a mente ativa sem dispersão.
Contextos emergenciais
Em funções que exigem resposta imediata — como aviação, saúde ou segurança —, o cérebro é treinado para lidar com múltiplas informações simultâneas. Mesmo assim, esses profissionais contam com protocolos e equipes de apoio que reduzem o risco de erro humano.
Como recuperar o foco e trabalhar melhor
Adote o princípio do “uma coisa de cada vez”
O single tasking é a alternativa mais eficaz à multitarefa. Ele consiste em realizar uma tarefa por vez, com total concentração. Ao eliminar distrações, a qualidade do resultado e a velocidade de execução aumentam naturalmente.
Organize blocos de tempo
Reserve períodos fixos do dia para tarefas específicas. Essa técnica, conhecida como time blocking, ajuda o cérebro a entrar em um estado de foco profundo, reduzindo a ansiedade de alternar entre múltiplas atividades.
Estabeleça prioridades
Nem todas as tarefas merecem a mesma atenção. Definir o que é essencial evita a dispersão e direciona a energia para o que realmente gera impacto.
Crie ambientes sem interrupções
Desative notificações, use fones de ouvido, estabeleça horários para responder mensagens e comunique à equipe seus momentos de concentração. Pequenas medidas como essas têm grande efeito na produtividade real.
Cuide da energia mental
O foco depende de descanso. Pausas curtas a cada 90 minutos, sono de qualidade e alimentação adequada são pilares da produtividade sustentável. O desempenho não está ligado apenas ao tempo de trabalho, mas também à capacidade de se recuperar.
Redefina o conceito de produtividade
Produzir mais não é o mesmo que produzir melhor. As empresas que incentivam pausas, foco e concentração tendem a ter equipes mais criativas, motivadas e consistentes. O novo paradigma de produtividade valoriza profundidade, não velocidade.
O papel das empresas e lideranças
Cultura organizacional focada em resultados
Gestores que valorizam multitarefas criam um ambiente propício à dispersão. Incentivar o foco, estabelecer metas claras e evitar sobreposição de demandas são atitudes que fortalecem o desempenho coletivo.
Comunicação consciente
Menos reuniões e mensagens redundantes significam mais tempo de concentração. A liderança deve dar exemplo ao praticar uma comunicação objetiva e respeitar os períodos de foco da equipe.
Bem-estar como estratégia
Empresas que estimulam descanso, pausas e equilíbrio entre vida pessoal e profissional obtêm melhores resultados. A produtividade cresce quando o colaborador se sente respeitado e mentalmente saudável.
Considerações finais
A multitarefa ainda é vista como sinal de eficiência, mas, na prática, representa o contrário: distração, cansaço e queda de desempenho. A busca por “alta produtividade” baseada em fazer tudo ao mesmo tempo leva à exaustão e reduz a qualidade do trabalho.
O verdadeiro ganho de eficiência está em desacelerar o ritmo, priorizar o foco e adotar práticas mais humanas e estratégicas. Em vez de medir sucesso pelo volume de tarefas concluídas, o futuro do trabalho depende da capacidade de pensar com profundidade, criar valor e preservar o bem-estar.
