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A trágica história de Héctor Oesterheld: o criador de O Eternauta que desapareceu na ditadura argentina

Um legado brilhante marcado pela censura e pela repressão

A história da América Latina é repleta de artistas e intelectuais cujas trajetórias foram interrompidas por regimes autoritários. Um dos casos mais emblemáticos é o de Héctor Germán Oesterheld, criador da icônica HQ O Eternauta (El Eternauta), considerado o quadrinho mais importante da história argentina. Autor visionário e crítico do poder, Oesterheld foi sequestrado pelos militares durante a ditadura argentina e nunca mais foi visto.

Seu desaparecimento, ocorrido em 1977, é um símbolo do que foi a repressão na Argentina: sistemática, brutal e voltada a silenciar as vozes que ousavam imaginar um futuro diferente. Hoje, sua obra sobrevive como resistência, e seu nome figura entre os mártires da liberdade de expressão na América Latina.

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O início da carreira de Oesterheld

Um apaixonado por ciência e ficção

Nascido em Buenos Aires em 1919, Héctor Germán Oesterheld formou-se em geologia, mas sua paixão desde cedo era escrever. Começou publicando contos de ficção científica em revistas nos anos 1940, antes de mergulhar no mundo dos quadrinhos. Em 1957, fundou a editora Frontera, por onde publicou a primeira versão de O Eternauta, em parceria com o ilustrador Francisco Solano López.

A criação de uma nova linguagem nos quadrinhos

Diferente dos super-heróis americanos que dominavam o mercado na época, Oesterheld trouxe aos quadrinhos argentinos personagens comuns, heróis anônimos, com dilemas reais. Seu trabalho marcou o nascimento da chamada “escola argentina de quadrinhos”, com forte influência literária e foco em temas sociais e políticos.

O Eternauta: a obra-prima

Enredo e simbolismo

O Eternauta conta a história de Juan Salvo, um homem comum que sobrevive a uma nevasca mortal causada por uma invasão alienígena. Para se manter vivo, ele e sua família se isolam em casa, enquanto o mundo desmorona ao redor. Longe de ser apenas uma história de ficção científica, a HQ é uma metáfora poderosa sobre o medo, a sobrevivência e a solidariedade diante da opressão.

Uma crítica velada à repressão

Embora publicada antes da ascensão dos regimes militares na América do Sul, a história ecoava um alerta sobre os perigos do autoritarismo e da submissão às forças ocultas que controlam a sociedade. O protagonista não é um salvador, mas um sobrevivente — símbolo do cidadão diante de um Estado que se transforma em ameaça.

Edições posteriores mais politizadas

Em 1976, já sob o clima opressor da ditadura, Oesterheld escreveu uma nova versão de O Eternauta, desta vez mais politizada e explícita em suas críticas. A história mostrava o personagem central participando de uma resistência armada — uma alusão clara às lutas revolucionárias que ocorriam no país naquele momento.

Essa reinterpretação custaria caro ao autor.

O ativismo político e o sequestro

Envolvimento com os Montoneros

Nos anos 1970, Oesterheld aproximou-se da organização guerrilheira peronista Montoneros, atuando como simpatizante e cronista da causa. Seus textos exaltavam a luta contra o regime militar e retratavam os combatentes como heróis do povo. Também escreveu biografias de revolucionários como Che Guevara e Eva Perón, o que aumentou sua visibilidade entre os círculos de resistência.

O cerco da repressão

A repressão argentina, conhecida por sua brutalidade, via na arte uma ameaça. Oesterheld e suas quatro filhas — todas militantes de esquerda — foram sequestrados entre 1976 e 1977. Nenhuma das cinco mulheres sobreviveu. Acredita-se que Héctor tenha sido levado a diversos centros clandestinos de detenção e tortura, como o tristemente célebre Campo de Mayo.

Testemunhas relataram que, mesmo preso, Oesterheld continuava escrevendo — em pedaços de papel, em guardanapos, em qualquer coisa que pudesse registrar suas ideias.

Ele teria sido assassinado entre o final de 1977 e início de 1978. Seu corpo nunca foi encontrado.

A ditadura argentina e os desaparecidos

Um regime de terror

A ditadura militar argentina (1976–1983) foi um dos períodos mais sombrios da história do país. Cerca de 30 mil pessoas foram desaparecidas, segundo organizações de direitos humanos. Muitos foram torturados e executados secretamente, com seus corpos ocultados para impedir funerais e homenagens.

Intelectuais, estudantes, artistas e sindicalistas estavam entre os alvos preferenciais da repressão. Héctor Oesterheld tornou-se um símbolo desse extermínio silencioso.

A ausência como arma política

O desaparecimento forçado, mais do que a morte, era uma estratégia de terror. As famílias não podiam enterrar seus mortos, não tinham respostas, não sabiam se ainda havia esperança. No caso de Oesterheld, a tragédia foi ampliada pelo destino de suas filhas e de seus netos — alguns dos quais foram localizados anos depois por grupos como as Avós da Praça de Maio.

O legado de Oesterheld

Um mártir da liberdade de expressão

O trabalho de Oesterheld ganhou força justamente após sua morte. O Eternauta tornou-se leitura obrigatória nas escolas argentinas, símbolo da resistência cultural contra a ditadura. Em 2014, seu nome foi incluído no Panteão Nacional dos Escritores da Argentina, ao lado de autores como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar.

Reedições, homenagens e adaptações

A HQ teve diversas reedições ao longo das décadas. Em 2020, a Netflix anunciou uma adaptação em série de O Eternauta, com direção de Bruno Stagnaro, o que aumentou ainda mais o interesse global pela obra.

Exposições, peças de teatro e estudos acadêmicos também se multiplicaram, consolidando Oesterheld como uma das maiores vozes dos quadrinhos latino-americanos.

O eterno retorno de Juan Salvo

O personagem de O Eternauta representa mais do que ficção: ele é a imagem do povo argentino enfrentando o horror. Sua máscara, seu traje de proteção, sua postura diante do inimigo invisível — tudo ressoa com a memória de um país que precisou sobreviver ao próprio Estado.

Considerações finais

eternauta
Edição – Bestofweb/Canva

A trajetória de Héctor Germán Oesterheld é a fusão perfeita entre arte e política. Criador de uma das obras mais importantes dos quadrinhos latino-americanos, ele pagou com a própria vida por ousar imaginar um mundo diferente. Seu desaparecimento é uma ferida aberta na história da Argentina, mas também um lembrete do poder da palavra e do perigo de silenciá-la.

Mais do que um autor de HQs, Oesterheld foi — e continua sendo — um símbolo de resistência, memória e esperança. Em cada nova leitura de O Eternauta, seu grito silencioso contra a opressão volta a ecoar.