Filme indicado ao Oscar fala sobre a vida de um soldado que se tornou herói nacional ao lutar na II Guerra Mundial sem armas. Conheça a história real
Estamos cada vez mais acostumados a ver filmes baseados em fatos reais. Todos eles, com exceção dos documentários, carregam consigo uma particularidade em comum: nem sempre a história base é fielmente seguida. É natural que a indústria cinematográfica necessite mudar certos diálogos e acontecimentos para que a produção se torne mais atrativa para o público. E, às vezes, ocorrem certos exageros também, o que faz com que a credibilidade do ‘baseado em fatos reais’ seja duvidosa.
Contudo, há casos em que a realidade se apresenta de maneira tão forte e impactante que a ficção precisa aliviar a história ao invés de acrescentar conteúdo. Um exemplo disso está no filme ‘Até o Último Homem‘ (‘Hacksaw Ridge’), dirigido por Mel Gibson e que recebeu seis indicações ao Oscar – filme, direção, mixagem de som, edição, edição de som e ator (Andrew Garfield).
A obra se baseia na história real de um homem chamado Desmond Doss (interpretado por Garfield nas telonas) e sua trajetória é tão impressionante que chega a ser difícil de acreditar que seja verdade.
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Cena do filme Até o Último Homem
Doss foi um soldado americano que atuou em campo na Segunda Guerra Mundial sem nunca ter usado uma arma. Tanto por motivos pessoais quanto por religião, ele se recusava a matar alguém e não aceitava ter uma arma em mãos nem por legítima defesa. No entanto, seu caráter justo o fez considerar que a atitude mais certa a se tomar era se alistar ao exército de seus pais no período da guerra. E assim, desarmado, estando munido apenas de sua fé e seus princípios, ele foi para a luta.
Se você acha que o papel de Doss foi insignificante, você está muito enganado. O soldado teve uma participação tão fundamental no campo de batalha que se tornou o primeiro militar a alegar imperativo de consciência e ainda assim ser condecorado com a Medalha de Honra do governo americano. Doss se tornou um herói sem precisar matar soldados inimigos, mas sim, salvando os seus companheiros: depois de uma batalha nas terras japonesas de Okinawa, Doss salvou sozinho um número na faixa de 50 a 100 soldados feridos, que haviam sido deixados no alto de um penhasco quando o restante da companhia se retirou do local após uma batalha que deixou muitos mortos.
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Desmond Doss recebendo a Medalha de Honra do governo americano, sendo condecorado pelo presidente Harry Truman – Foto: Reprodução
Impressionante, não é mesmo? Embora estando diante de um cenário tão delicado, Desmond jamais agiu contra seus princípios: “Independentemente de suas crenças religiosas, a história de Desmond, um homem que não compromete seus princípios, é poderosa”, conta o roteirista Robert Schenkkan em entrevista ao blog ‘É Tudo História’, da Veja.
Robert fala também a respeito da inversão de valores que se vê hoje em dia. Para ele, hoje se dá muito valor a um tipo de masculinidade baseado em dominação, narcisismo e indiferença, enquanto a masculinidade de Doss era marcada por modéstia, generosidade e autossacrifício.
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O soldado Desmond Doss – Foto: Reprodução
E foi por causa da modéstia que sua nobre história demorou tanto tempo para ser contada. Doss morreu em 2006, aos 87 anos, e apenas próximo do final de sua vida ele concordou em vender os direitos para Hollywood. Robert admite que certas partes receberam pinceladas de ficção, como é normal em qualquer filme, mas ao mesmo tempo, ele afirma que alguns momentos da vida de Desmond são tão difíceis de acreditar que ele decidiu deixar de fora do roteiro.
No filme serão contados vários momentos da vida do soldado. Desde sua complicada infância até todo o caminho percorrido por ele até o dia do resgate. Quando criança, a religião entrou em sua vida após um incidente envolvendo Harold, seu irmão – ressaltando que sua família é adventista do sétimo dia. Durante uma briga, Desmond atirou uma pedra na cabeça do irmão e quase o matou. Foi um momento marcante para o menino, no qual fez nele surgir a convicção de que ele jamais deveria matar alguém. E além disso, ela precisou conviver com os problemas com álcool do pai, o carpinteiro William Thomas Doss.
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Memorial construído em homenagem a Desmond – Foto: Flickr/Reprodução
Quando se alistou, as convicções de Desmond o renderam ridicularizações por parte dos outros soldados, que o julgavam pelo fato dele se recusar a pegar em armas. Ele chegou a sofrer uma tentativa de dispensa de seu comandante, alegando razões psiquiátricas para impedir que o jovem fizesse parte do batalhão. Nisso, ele chegou a enfrentar a corte marcial, lutando para provar que poderia seguir com as tropas.
Durante a Segunda Guerra, Doss já havia participado, ao lado de sua equipe de soldados, de outras batalhas, mas nenhuma foi tão marcante – e sangrenta – quanto a Batalha de Okinawa. Seu papel era o de ajudar os feridos e tudo era feito sem qualquer tipo de identificação, pois os médicos eram os principais alvos dos japoneses. E mesmo sem qualquer possibilidade de se defender, ele não hesitava e enfrentava o perigo de frente para cumprir a sua missão, o que fez ganhar respeito de sua tropa.
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Andrew Garfield em cena do filme ‘Até o Último Homem’
No salvamento dos soldados que permaneceram no local, Doss atuou em um período entre 10 a 12 horas para resgatar o maior número de companheiros possível. “Deus, me ajude a ajudar só mais um”, pedia ele após cada um que ele salvava. E enquanto não chegaram reforços para ajudá-lo, Desmond fez tudo sozinho, não se intimidando mesmo podendo ser atacado a qualquer momento pelo exército inimigo. Segundo relato próprio, ele auxiliou para o salvamento de 50 vidas, enquanto os companheiros afirmam que foram mais de 100.
Desmond foi condecorado com a Medalha de Honra pelo presidente Harry Truman, na Casa Branca. Seguindo aquilo o que acreditava, Doss se tornou um herói, conquistando o respeito de colegas, comandantes e de todo um país.
Confira o trailer do filme ‘Até o Último Homem’, lançado em 27 de janeiro no Brasil:

Que história, não é mesmo?

Cena do filme Até o Último Homem
Desmond Doss recebendo a Medalha de Honra do governo americano, sendo condecorado pelo presidente Harry Truman – Foto: Reprodução
O soldado Desmond Doss – Foto: Reprodução
Memorial construído em homenagem a Desmond – Foto: Flickr/Reprodução
Andrew Garfield em cena do filme ‘Até o Último Homem’