Energia nuclear no Brasil: por que ainda é pouco utilizada e quais os caminhos para o futuro
O Brasil e seu tímido uso da energia atômica
Mesmo sendo uma das maiores economias da América Latina e contando com vastos recursos naturais, o Brasil ainda explora pouco o potencial da energia nuclear. Atualmente, essa fonte representa uma fração mínima da matriz elétrica nacional, ficando atrás de alternativas como hidrelétricas, usinas eólicas e painéis solares. O que impede o país de investir mais na energia atômica? E o que pode mudar nos próximos anos?
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Panorama atual da energia nuclear no Brasil
As usinas nucleares em funcionamento
Atualmente, o país conta com duas usinas nucleares em operação: Angra 1 e Angra 2, localizadas em Angra dos Reis, no estado do Rio de Janeiro. Angra 1 começou a funcionar em 1985, enquanto Angra 2 entrou em operação no início dos anos 2000. Juntas, elas são responsáveis por cerca de 2% da geração de eletricidade do país.
Essa participação é modesta se comparada à de outros países que adotaram a energia nuclear como uma das principais fontes de abastecimento — como França, Estados Unidos e China.
O projeto inacabado de Angra 3
Uma terceira usina, Angra 3, começou a ser construída ainda nos anos 1980, mas passou por sucessivas paralisações devido a entraves técnicos, financeiros e políticos. A retomada das obras tem sido discutida há anos, mas a conclusão segue incerta, apesar das promessas de que a unidade entre em operação até o final da década.
Por que o Brasil investe pouco em energia nuclear?

Forte dependência de fontes renováveis
O Brasil tem uma matriz energética historicamente baseada em fontes renováveis, especialmente a energia hidrelétrica, que responde por mais de 60% da geração elétrica no país. Com a ampliação da energia solar e eólica nos últimos anos, a necessidade de recorrer a fontes como a nuclear diminuiu.
Essa abundância de opções limpas e de custo relativamente mais baixo reduz a urgência por alternativas nucleares, que envolvem processos mais caros e complexos.
Altos custos e longos prazos de construção
Construir uma usina nuclear é um processo que exige grandes investimentos e longos períodos de planejamento e execução. A instalação de Angra 2, por exemplo, levou mais de 20 anos entre o início das obras e sua entrada em operação. Angra 3, que começou a ser erguida em 1984, ainda não foi finalizada.
Além do custo elevado para a construção, a manutenção de usinas nucleares também é onerosa, exigindo tecnologia especializada e mão de obra qualificada.
Preocupações com acidentes e resíduos radioativos
Acidentes como os de Chernobyl (1986) e Fukushima (2011) deixaram marcas profundas na opinião pública. Apesar dos avanços tecnológicos e de segurança nos projetos atuais, o medo de vazamentos e catástrofes ainda gera resistência.
Outro ponto sensível é o destino dos resíduos radioativos, que continuam perigosos por milhares de anos. O Brasil ainda não possui depósitos definitivos para o armazenamento de rejeitos de alta atividade, o que representa um gargalo técnico e ambiental.
Barreiras políticas e regulatórias
A energia nuclear no Brasil está sob controle da Eletronuclear, subsidiária da Eletrobras, e requer autorização da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e de outros órgãos reguladores. Além das exigências legais e técnicas, o setor sofre com a instabilidade política, mudanças de gestão e ausência de políticas públicas consistentes e de longo prazo.
As vantagens da energia nuclear para o país
Fonte limpa e com baixa emissão de carbono
Apesar das polêmicas, a energia nuclear não emite gases de efeito estufa durante a geração de eletricidade. Isso a torna uma aliada no combate às mudanças climáticas e uma alternativa viável para garantir segurança energética em momentos de escassez hídrica.
Capacidade de operação constante
Diferentemente das fontes intermitentes, como solar e eólica, as usinas nucleares funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana, oferecendo uma base estável de fornecimento que pode complementar outras fontes renováveis.
Alta densidade energética
A energia nuclear oferece uma grande quantidade de energia com pouco volume de combustível. Um único quilograma de urânio enriquecido pode gerar milhões de vezes mais energia do que o mesmo peso em carvão ou petróleo.
Os principais desafios do setor nuclear no Brasil
Infraestrutura e tecnologia defasadas
As usinas brasileiras operam com tecnologia de décadas passadas. A demora para atualizar projetos e concluir novas instalações mostra a dificuldade de modernizar o setor e atrair investimentos.
Além disso, o domínio do ciclo do combustível — desde a mineração até o enriquecimento e reprocessamento — precisa ser expandido para reduzir a dependência de fornecedores externos.
Necessidade de qualificação profissional
O setor nuclear demanda profissionais altamente capacitados. Para ampliar sua participação na matriz energética, o Brasil precisa investir na formação de engenheiros, técnicos e pesquisadores especializados em energia atômica.
A questão dos rejeitos
O Brasil ainda não definiu um local de armazenamento definitivo para resíduos nucleares de alta atividade, como os gerados em reatores. Atualmente, os rejeitos ficam em depósitos provisórios dentro das próprias usinas, o que não é uma solução viável a longo prazo.
Caminhos possíveis para o futuro
Conclusão de Angra 3
Finalizar a construção da terceira usina de Angra é o passo mais próximo e concreto para aumentar a capacidade nuclear do país. Quando concluída, a usina poderá ampliar a geração nuclear brasileira em cerca de 50%.
Exploração de pequenos reatores modulares (SMRs)
O Brasil tem estudado a adoção de reatores nucleares compactos, conhecidos como SMRs (Small Modular Reactors), que demandam menos espaço e recursos e podem ser instalados em regiões remotas. Eles oferecem mais flexibilidade e segurança e vêm sendo testados em diversos países.
Parcerias e transferência de tecnologia
O avanço do setor também depende de colaborações internacionais. Acordos com países que dominam a tecnologia nuclear, como França, Canadá e Coreia do Sul, podem acelerar a modernização do parque nuclear brasileiro.
Diversificação da matriz energética com equilíbrio
A energia nuclear não deve substituir as fontes renováveis, mas atuar como complemento, garantindo estabilidade ao sistema em momentos de seca ou queda na produção solar e eólica. Essa integração pode fortalecer a resiliência da matriz energética nacional.
Considerações finais
Apesar de seu vasto território e do domínio de parte do ciclo do combustível nuclear, o Brasil ainda caminha de forma lenta na expansão da energia atômica. Fatores como o alto custo, a complexidade tecnológica, os riscos associados e a preferência por fontes renováveis ajudam a explicar a tímida participação da energia nuclear no país.
Por outro lado, os avanços tecnológicos, a urgência climática e a necessidade de garantir segurança energética colocam a energia nuclear de volta ao debate. Se o Brasil souber enfrentar seus desafios com planejamento, transparência e investimento, a energia nuclear poderá desempenhar um papel mais relevante no futuro energético do país.
