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Comida de avião é dominada por ultraprocessados

A realidade das refeições em voos comerciais

Para a maioria dos passageiros, a experiência de voo inclui uma bandeja de alimentos padronizados, muitas vezes servida poucas horas após a decolagem. Porém, o que vem nessas bandejas merece atenção: a predominância de alimentos ultraprocessados, altamente processados e de baixo valor nutricional tem levantado preocupações entre especialistas em saúde e nutrição.

Enquanto companhias aéreas priorizam custo e praticidade, passageiros consomem refeições pobres em nutrientes e ricas em aditivos, corantes, sódio e açúcar. Essa tendência não é acidental, mas resultado da ausência de regulação específica sobre a qualidade das refeições servidas em voos comerciais no Brasil e em boa parte do mundo.

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Por que tantos ultraprocessados a bordo?

Logística e durabilidade

Os alimentos ultraprocessados dominam os cardápios aéreos por razões logísticas. Eles têm longa validade, não exigem refrigeração intensa, são fáceis de embalar e resistem bem às mudanças de temperatura e pressão. Isso os torna ideais para as necessidades das companhias aéreas, que operam sob rigorosos protocolos de segurança alimentar, tempo e espaço limitados nas aeronaves.

Pães embalados individualmente, bolinhos prontos, massas com molhos prontos, biscoitos industrializados e sucos adoçados são alguns dos itens mais comuns. Mesmo opções que parecem frescas — como frutas — muitas vezes são pré-processadas e embebidas em conservantes.

Falta de fiscalização específica

Atualmente, a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) regula inúmeros aspectos do transporte aéreo no Brasil, mas não impõe padrões sobre a composição nutricional das refeições. Isso significa que as companhias aéreas têm autonomia quase total para definir seus cardápios, desde que respeitem regras sanitárias básicas.

Na prática, isso abre espaço para escolhas comerciais que priorizam custo e facilidade de transporte, em vez de considerar o impacto na saúde dos passageiros — especialmente em voos longos, onde as refeições a bordo podem representar boa parte do consumo calórico do dia.

O que são ultraprocessados e por que preocupam?

Alimentos ultraprocessados são produtos industriais criados com base em formulações químicas que simulam alimentos reais, com uso intensivo de aditivos, corantes, conservantes, realçadores de sabor e açúcares. São projetados para serem práticos, agradáveis ao paladar e altamente duráveis.

Diversos estudos científicos já associaram o consumo frequente desses alimentos ao desenvolvimento de doenças como:

  • Obesidade
  • Hipertensão
  • Diabetes tipo 2
  • Doenças cardiovasculares
  • Alguns tipos de câncer

Além disso, o consumo regular de ultraprocessados está relacionado à menor qualidade da dieta geral e ao aumento de inflamações crônicas no corpo.

A saúde em risco a 10 mil metros de altitude

Metabolismo mais lento e menor hidratação

Durante voos, o organismo funciona em ritmo mais lento. A pressão da cabine e a baixa umidade relativa do ar contribuem para uma digestão mais lenta e menor capacidade de absorção de nutrientes. O consumo de refeições ricas em gorduras, sódio e açúcares potencializa desconfortos como inchaço, má digestão e fadiga.

Além disso, a baixa ingestão de líquidos durante o voo — comum entre passageiros — agrava esses efeitos, especialmente quando a refeição inclui alimentos salgados e doces industrializados.

O impacto da altitude no paladar

Outro fator que influencia a comida de avião é a alteração do paladar em grandes altitudes. Estudos apontam que ficamos até 30% menos sensíveis aos sabores doces e salgados dentro do avião. Para compensar, muitas receitas a bordo são preparadas com quantidades maiores de sal, açúcar e condimentos — o que reforça ainda mais a presença de ultraprocessados.

Como melhorar a alimentação em voos?

ultraprocessados
Imagem – Bestofweb/Freepik

Opções melhores existem?

Algumas companhias aéreas internacionais já oferecem cardápios com foco em alimentos frescos e integrais, especialmente nas classes executiva e primeira. No entanto, essas iniciativas ainda são restritas a empresas de alto padrão e rotas específicas. Na maioria dos voos domésticos ou internacionais de companhias de baixo custo, as opções continuam sendo lanches industrializados e bebidas adoçadas.

É possível levar seu próprio alimento?

Sim. Em muitos casos, passageiros podem levar frutas, castanhas, sanduíches naturais ou barrinhas nutritivas na bagagem de mão. Alimentos não líquidos e embalados individualmente costumam ser permitidos, inclusive em voos internacionais, desde que respeitem regras de segurança e alfândega no destino.

Levar seu próprio lanche é uma das melhores formas de evitar o consumo forçado de ultraprocessados a bordo.

Sinalização nutricional nas embalagens

Outra medida que pode beneficiar os consumidores seria a exigência de rotulagem nutricional nos alimentos servidos em voos, assim como ocorre nos supermercados. Informações claras sobre calorias, sódio, gorduras e aditivos ajudariam os passageiros a fazer escolhas mais conscientes.

A necessidade de regulamentação

O debate sobre a alimentação a bordo ainda é tímido no Brasil, mas tem ganhado força com o aumento das preocupações públicas sobre saúde alimentar. A criação de normas específicas que incentivem ou exijam a inclusão de refeições mais saudáveis nos voos pode representar um importante passo para transformar o padrão atual.

Organizações de saúde pública defendem que a aviação civil, como um setor que movimenta milhões de pessoas por dia, não pode ficar fora das políticas de alimentação saudável. Assim como há regulamentações para alimentos vendidos em escolas, eventos e espaços públicos, as companhias aéreas também deveriam se submeter a critérios nutricionais mínimos.

Considerações finais: o que esperar do futuro da comida nas nuvens

Com a alimentação a bordo ainda amplamente dominada por produtos ultraprocessados e a ausência de regulação clara, cabe aos passageiros fazerem escolhas mais informadas — e, sempre que possível, levarem suas próprias alternativas saudáveis.

Enquanto isso, cresce a pressão por uma aviação que pense também no bem-estar nutricional de seus usuários. Em um cenário onde cada vez mais voos duram horas ou dias, a qualidade do que se come nas alturas não pode ser ignorada.