Curiosidades

As cidades que podem ficar inabitáveis nas próximas décadas — e uma delas fica no Brasil

O aumento das temperaturas pode transformar profundamente a rotina de algumas das maiores cidades do mundo nas próximas décadas. No Brasil, Belém e São Luís aparecem entre os centros urbanos que poderão enfrentar uma quantidade muito maior de dias sob condições severas de estresse térmico até 2050. Os números não significam que essas cidades serão abandonadas, mas indicam que o calor poderá afetar cada vez mais a saúde, o trabalho, o consumo de energia e a própria estrutura dos espaços urbanos.

Leia mais:

O que está acontecendo com o clima em 2026? Os sinais que estão chamando a atenção dos cientistas

Belém pode enfrentar 343 dias de estresse térmico

Belém, capital do Pará, está entre os casos que mais chamam atenção. Segundo uma análise do Banco Mundial, a cidade poderá registrar 343 dias por ano com WBGT máximo superior a 30,5 °C ao sol em 2050, contra aproximadamente 283 dias na referência atual utilizada pelo estudo.

O WBGT é um indicador que avalia o estresse térmico considerando uma combinação de fatores, como temperatura, umidade, vento e radiação solar. Por isso, os 343 dias projetados não significam que os termômetros necessariamente marcarão mais de 30,5 °C durante todo esse período. O índice procura representar o impacto das condições ambientais sobre a capacidade do corpo de eliminar calor.

A umidade tem papel importante nesse processo. Quando o ar está muito úmido, o suor evapora com mais dificuldade e o organismo perde parte da capacidade de se resfriar naturalmente. Em uma cidade quente e úmida como Belém, essa combinação pode tornar determinadas atividades ao ar livre mais desgastantes, principalmente nos horários de maior exposição ao sol.

São Luís também aparece entre as cidades mais expostas

São Luís, no Maranhão, apresenta uma projeção igualmente significativa. Na análise do Banco Mundial, a cidade poderá passar de aproximadamente 140 dias por ano acima do limiar de 30,5 °C de WBGT na referência atual para 325 dias em 2050.

A mudança pode interferir diretamente na rotina dos moradores. Trabalhadores que passam muitas horas ao ar livre, pessoas que dependem do transporte público e quem vive em imóveis pouco ventilados podem ficar mais expostos. Em períodos de calor intenso, atividades que hoje são realizadas normalmente podem exigir alterações de horário, pausas mais frequentes e maior acesso a locais protegidos.

O calor extremo vai além do desconforto

O problema não se resume à sensação de calor. O corpo humano precisa manter sua temperatura interna dentro de limites relativamente estreitos e utiliza a transpiração como uma das principais formas de eliminar calor. Quando a temperatura e a umidade estão elevadas, esse mecanismo pode funcionar com menor eficiência.

A exposição prolongada também pode afetar trabalhadores de setores como construção civil, agricultura, entregas e comércio informal. Além dos riscos relacionados ao calor, períodos extremos podem reduzir a produtividade e aumentar a procura por serviços de saúde.

Outro impacto está dentro das residências. Quanto mais quente fica uma cidade, maior tende a ser a necessidade de ventiladores e aparelhos de ar-condicionado. Isso aumenta o consumo de energia e pode pesar principalmente no orçamento de famílias que têm menos condições financeiras para manter ambientes climatizados.

O problema também aparece em outras cidades do mundo

Belém e São Luís fazem parte de um fenômeno observado em diferentes regiões do planeta. Estudos recentes indicam que cidades tropicais e costeiras poderão enfrentar ondas de calor mais frequentes e intensas nas próximas décadas.

A própria estrutura urbana pode agravar a situação. Asfalto e concreto absorvem calor durante o dia, enquanto a redução da vegetação diminui a sombra e a capacidade natural de resfriamento. Em bairros muito densos, o calor acumulado também pode permanecer por mais tempo durante a noite.

São Paulo terá uma situação diferente

São Paulo também aparece nas projeções do Banco Mundial, mas em uma escala muito menor. A capital paulista passa de aproximadamente um dia na referência atual para sete dias em 2050 acima do limiar de 30,5 °C de WBGT ao sol.

Ainda assim, a cidade já enfrenta o efeito de ilha de calor urbana. Regiões com grande concentração de edifícios, asfalto e pouca vegetação podem registrar condições térmicas diferentes de áreas mais arborizadas.

As cidades podem se adaptar

As projeções climáticas não representam uma sentença definitiva. A forma como as cidades forem planejadas poderá influenciar a exposição da população ao calor. Arborização, parques, áreas de sombra, preservação de espaços verdes e edifícios com melhor ventilação estão entre as medidas que podem ajudar a reduzir os impactos.

A infraestrutura também precisará acompanhar as mudanças. Sistemas de energia, transporte, abastecimento de água, saúde e habitação podem ser pressionados por períodos prolongados de temperaturas elevadas. Quanto maior a preparação, maior a capacidade de reduzir os efeitos sobre a população.

O que significa uma cidade se tornar “inabitável”?

O termo precisa ser interpretado com cuidado. Os estudos não afirmam que Belém ou São Luís serão abandonadas em 2050. As projeções indicam, principalmente, um aumento da exposição a condições de estresse térmico.

Uma cidade pode continuar densamente habitada e, ainda assim, se tornar mais difícil de viver durante determinadas horas do dia. Horários de trabalho podem mudar, casas podem precisar de maior proteção térmica e espaços públicos sem sombra podem se tornar menos utilizados nos períodos mais quentes.

No Brasil, os números projetados para Belém e São Luís mostram a dimensão do desafio. Se as projeções se confirmarem, o calor extremo poderá deixar de ser apenas uma característica climática dessas cidades e passar a influenciar diretamente a maneira como seus moradores trabalham, circulam e vivem.

O futuro, portanto, não precisa ser imaginado como uma cidade vazia ou abandonada. Pode ser uma transformação muito mais gradual: centros urbanos ainda cheios de pessoas, mas obrigados a adaptar sua infraestrutura e sua rotina a um clima cada vez mais quente.