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China oferece auxílio anual por filho para conter queda populacional: veja quem tem direito e como funciona

Governo chinês oferece auxílio por criança para combater queda populacional

Com uma taxa de natalidade em constante declínio e o aumento expressivo da população idosa, a China se depara com um desafio inédito em sua trajetória: o encolhimento populacional. Em resposta a esse cenário, o governo chinês passou a adotar novas políticas de incentivo à natalidade, entre elas, o anúncio de um benefício financeiro de cerca de R$ 2.800 por ano para famílias com filhos. A medida busca conter o avanço da crise demográfica e garantir a sustentabilidade econômica e social do país nas próximas décadas.

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O que motivou o novo incentivo por filho

Redução histórica no número de nascimentos

Nos últimos anos, o número de nascimentos na China caiu para os níveis mais baixos desde o início da série histórica. O último censo apontou uma diminuição populacional inédita desde os anos 1960, refletindo os impactos de décadas de políticas de controle demográfico e mudanças no comportamento das novas gerações.

Consequências de um país com menos jovens

A diminuição da população em idade produtiva pressiona o sistema previdenciário e reduz o dinamismo da economia. Com menos trabalhadores ativos e mais aposentados, o risco de desaceleração econômica se intensifica. Esse desequilíbrio é visto com preocupação pelas autoridades chinesas, que agora tentam reverter o quadro.

Do filho único à flexibilização total

A política do filho único, que vigorou por mais de 30 anos, foi flexibilizada em 2015, permitindo dois filhos, e mais tarde, em 2021, três. No entanto, a mudança nas leis não foi suficiente para estimular um aumento no número de nascimentos. O custo de vida elevado, a competição no mercado de trabalho e a falta de apoio público para famílias continuam sendo barreiras.

Como funciona o auxílio por criança

Valor e periodicidade do benefício

Segundo informações das autoridades locais, o auxílio anunciado equivale a aproximadamente 3.000 yuans por criança a cada ano, o que corresponde a cerca de R$ 2.800. O pagamento será anual e poderá variar conforme a cidade ou província, já que o governo central autorizou administrações locais a adaptarem a política conforme suas realidades.

Quem poderá receber

A princípio, a ajuda financeira será destinada a famílias com filhos nascidos a partir de 2024. Cidades-piloto já iniciaram a implementação do programa, priorizando núcleos familiares com até três filhos registrados. Não foi exigido critério de renda inicialmente, embora algumas regiões possam aplicar restrições futuras.

Formato da implementação

A distribuição do valor poderá ser feita em parcelas mensais, depósitos únicos anuais ou deduções fiscais, de acordo com a definição de cada governo local. Em algumas localidades, o valor será depositado diretamente em contas vinculadas a programas sociais, enquanto outras preveem integração com subsídios à educação ou à saúde.

Outras medidas para aumentar a natalidade

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Imagem – Bestofweb/Canva

Extensão das licenças parentais

Além do repasse anual por filho, a China vem promovendo mudanças em políticas trabalhistas, como a ampliação da licença maternidade e a criação de novos direitos para os pais. Em algumas regiões, mães já contam com até seis meses de licença remunerada, enquanto os pais passaram a ter até 30 dias, em contraste com os sete dias anteriores.

Redução de custos com creches e escolas

Programas de incentivo ao acesso gratuito ou subsidiado a creches e escolas estão em expansão. O objetivo é aliviar as despesas das famílias nos primeiros anos de vida da criança, quando os gastos com cuidados básicos e educação são mais significativos.

Apoio habitacional para famílias com mais filhos

Outras medidas envolvem o oferecimento de descontos em financiamentos de imóveis, isenção de taxas e prioridade em programas habitacionais para famílias numerosas. Em algumas cidades, casais com dois ou três filhos já contam com subsídios diretos na aquisição da primeira moradia.

Comparações com políticas de outros países

Coreia do Sul

A Coreia do Sul enfrenta uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo e investe em políticas semelhantes. Famílias recebem bônus financeiros, apoio à educação e subsídios diretos, mas, mesmo assim, os resultados têm sido limitados.

Japão

O Japão também enfrenta envelhecimento populacional. Para enfrentar o problema, o país aposta em benefícios para mães que trabalham, subsídios para educação infantil e estímulo à paternidade ativa. No entanto, barreiras culturais continuam dificultando avanços significativos.

França

Na Europa, a França é referência em políticas eficazes de natalidade. Com uma combinação de auxílio financeiro, creches públicas, estabilidade no emprego e proteção às mães, o país tem uma das taxas de fertilidade mais altas da União Europeia.

O que pensam os chineses sobre a medida

Recepção positiva, mas com ressalvas

Para muitos cidadãos, o auxílio financeiro chega em boa hora, especialmente nas grandes cidades, onde os custos com filhos são elevados. No entanto, o valor é visto como simbólico, e não suficiente para cobrir todas as despesas associadas à criação de uma criança.

Ceticismo sobre o impacto real

Especialistas alertam que medidas pontuais dificilmente gerarão impacto profundo se não forem acompanhadas de uma mudança estrutural. Incentivos financeiros são bem-vindos, mas é preciso criar um ambiente mais favorável à vida familiar, especialmente para as mulheres que conciliam maternidade e carreira.

Impactos esperados e possíveis limitações

Riscos de curto prazo

A expectativa é que o incentivo gere resultados mais expressivos nas cidades do interior, onde o custo de vida é mais baixo. Já nos grandes centros urbanos, o impacto pode ser limitado, dado que as despesas com moradia, saúde e educação tendem a superar os valores oferecidos pelo benefício.

Desafios no médio e longo prazo

A mudança no perfil demográfico da China não será revertida de forma rápida. A baixa disposição das novas gerações para formar famílias numerosas, aliada ao aumento da longevidade, torna o problema estrutural. A medida, portanto, é apenas uma entre muitas que precisarão ser adotadas.

Mulheres no centro da discussão

Pressão profissional e social

As mulheres chinesas enfrentam o peso da responsabilidade de equilibrar carreira e maternidade. Muitas relatam que engravidar pode significar estagnação ou até demissão. Sem garantias reais de apoio após o nascimento do filho, o incentivo financeiro pode não ser suficiente para convencê-las.

Falta de apoio institucional

Além do custo financeiro, há a ausência de uma rede ampla de apoio, como creches públicas, horários de trabalho flexíveis e segurança trabalhista. Para muitas mulheres, a maternidade segue sendo um projeto solitário e arriscado.

Considerações finais

O novo benefício anunciado pela China representa um passo importante diante de um cenário alarmante: a queda constante da natalidade e o envelhecimento acelerado da população. O valor de R$ 2.800 por ano por filho pode parecer pequeno, mas sinaliza uma mudança na postura do Estado, que durante décadas incentivou a limitação de nascimentos.

No entanto, para que a medida tenha resultados significativos, será preciso mais do que dinheiro. É necessário reformar o mercado de trabalho, ampliar o acesso à educação infantil, promover igualdade de gênero e garantir às famílias a tranquilidade necessária para crescer.

O desafio é imenso, e o futuro demográfico da China dependerá da capacidade de o país transformar incentivos pontuais em políticas públicas robustas e sustentáveis.