
Álcool altera memória e decisões: entenda o efeito no cérebro
Beber socialmente faz parte da rotina de muitos adultos e, em doses ocasionais, costuma ser encarado como algo comum na vida social. O problema começa quando o consumo deixa de ser eventual e passa a ser frequente ou exagerado. Nesse cenário, os impactos deixam de ser apenas passageiros e podem atingir diretamente o funcionamento do cérebro, órgão responsável por tudo o que pensamos, sentimos e fazemos. Embora muita gente associe os danos do álcool apenas ao fígado, os efeitos neurológicos são igualmente preocupantes e, em alguns casos, irreversíveis.
Especialistas alertam que o cérebro é um dos primeiros órgãos a dar sinais de que algo não vai bem quando há excesso de bebida. Alterações na fala, na coordenação, na memória e no comportamento não acontecem por acaso. Elas refletem mudanças químicas e estruturais em regiões cerebrais essenciais.
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Como o álcool começa a agir no cérebro
Logo após ser ingerido, o álcool entra na corrente sanguínea e alcança o cérebro em poucos minutos. Ali, ele interfere na comunicação entre os neurônios, as células responsáveis pela transmissão de informações. Segundo o American Addiction Centers, muitos dos efeitos visíveis da embriaguez surgem quando a concentração de álcool no sangue atinge cerca de 0,1%.
Para entender isso, é preciso falar de dois neurotransmissores importantes: o glutamato e o GABA. O glutamato tem função excitatória, estimulando a atividade cerebral. Já o GABA é inibitório, reduzindo essa atividade. O álcool aumenta a ação do GABA e diminui a do glutamato. O resultado é um cérebro mais lento, com respostas retardadas e menor capacidade de processar informações rapidamente. É por isso que a bebida tem efeito sedativo na maioria das pessoas.
Fala enrolada e dificuldade de raciocínio
Um dos primeiros sinais do excesso é a fala arrastada. Isso ocorre porque áreas responsáveis pelo controle motor fino, como os músculos da língua e da face, passam a funcionar de forma prejudicada. O cérebro demora mais para enviar comandos, e a articulação das palavras fica comprometida.
Ao mesmo tempo, o raciocínio lógico e a capacidade de julgamento também diminuem. Situações simples podem parecer mais confusas, e a pessoa pode ter dificuldade para acompanhar conversas ou tomar decisões coerentes.
Alterações no equilíbrio e na coordenação
Quando o consumo aumenta, outra área afetada é o cerebelo, responsável pelo equilíbrio e pela coordenação dos movimentos. Níveis mais elevados de álcool no sangue podem causar dificuldade para andar em linha reta, tropeços frequentes e a sensação de que o ambiente está girando.
Isso acontece porque o cerebelo integra informações visuais, espaciais e motoras. Com o álcool interferindo nesse processo, o corpo perde a referência de posição e movimento. A famosa andada cambaleante é um reflexo direto dessa desorganização neurológica.
O impacto na memória e os apagões
Outra região vulnerável é o hipocampo, essencial para a formação de novas memórias. Quando essa área é afetada, a pessoa pode não registrar adequadamente o que acontece durante o período de embriaguez. Surgem então os chamados apagões alcoólicos, em que há lacunas na lembrança de eventos.
Não se trata apenas de esquecer detalhes. Em casos de consumo intenso, o cérebro simplesmente não consolida as informações. A pessoa pode ter conversado, se locomovido e interagido, mas depois não se recorda de nada.
Perda de inibição e mudanças de comportamento
O álcool também atinge o córtex pré-frontal, área ligada ao controle dos impulsos, ao julgamento e à tomada de decisões. Quando essa região é prejudicada, a tendência é agir de forma mais impulsiva, falar o que normalmente seria evitado e se expor a situações de risco.
Essa perda de inibição ajuda a explicar por que pessoas alcoolizadas muitas vezes fazem coisas que não fariam sóbrias. O freio interno que regula o comportamento social fica enfraquecido.
O circuito de recompensa e o risco de dependência
O cérebro possui um sistema de recompensa, associado à liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer. O álcool ativa esse circuito, gerando bem-estar momentâneo. Com o tempo, o cérebro passa a associar a bebida a alívio emocional, relaxamento e prazer.
Esse mecanismo pode levar ao consumo repetido e, em algumas pessoas, à dependência. Nesses casos, a decisão de beber deixa de ser totalmente consciente e passa a envolver processos automáticos do cérebro, dificultando o controle.
Consequências neurológicas a longo prazo
O uso crônico e excessivo de álcool pode desencadear distúrbios neurológicos graves. Um deles é a encefalopatia de Wernicke, relacionada à deficiência de tiamina, a vitamina B1. Esse quadro pode causar confusão mental, problemas de coordenação e alterações visuais. Sem tratamento rápido, pode deixar sequelas permanentes.
Outra complicação é a síndrome de Korsakoff, caracterizada por amnésia persistente e dificuldade de formar novas memórias. Trata-se de uma condição séria, que compromete profundamente a autonomia e a qualidade de vida.
Existe uma quantidade segura?
Autoridades de saúde em países como o Brasil e os Estados Unidos estabelecem limites legais para dirigir, mas isso não significa que exista um número universalmente seguro para o cérebro. A tolerância varia de pessoa para pessoa, e fatores como peso, metabolismo, uso de medicamentos e histórico de saúde influenciam muito.
O consenso entre profissionais é que reduzir o consumo e evitar exageros é a melhor forma de proteger o cérebro. Quanto mais frequente e intenso o uso, maior o risco de prejuízos cognitivos, emocionais e comportamentais.
Por que a informação é tão importante
Entender o que o álcool faz no cérebro ajuda a enxergar a bebida além do efeito social. Não se trata apenas de ressaca no dia seguinte. O consumo excessivo pode afetar memória, coordenação, personalidade e saúde mental de forma duradoura.
A conscientização é uma ferramenta poderosa de prevenção. Ao reconhecer os sinais precoces, como esquecimentos frequentes, dificuldade de concentração e mudanças de comportamento após beber, é possível rever hábitos antes que os danos se tornem mais sérios.
No fim das contas, a mensagem é clara: moderação não é apenas uma recomendação moral, mas uma medida de proteção ao órgão que comanda toda a nossa vida. Cuidar do cérebro é cuidar da capacidade de pensar, lembrar, decidir e ser quem somos.
