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Quando a islandesa Thordis Elva tinha 16 anos, em 1996, ela namorava com o australiano Tom Stranger, de 18. Eles estava junto há apenas um mês, quando foram juntos para uma festa. Passaram-se algumas horas quando Thordis começou a passar mal e foi levada por Tom para casa, onde foi abusada.

Na época, ela não denunciou o namorado pelo ato cometido contra ela: "Eu tinha 16 anos e estava apaixonada pela primeira vez na vida. Fiquei machucada e chorei muito durante semanas, mas tudo era muito confuso para mim. Tom era meu namorado, não um lunático. E o estupro ocorreu na minha cama, não em uma viela. Quando finalmente concluí que havia sido estuprada, Tom já tinha voltado para a Austrália, ao final de seu programa de intercâmbio", disse Thordis. Certamente

Contudo, nove anos depois do ocorrido, o destino voltou a colocar Thordis e Tom frente a frente. Não mais como um casal, o par viaja pelo mundo realizando palestras nas quais discutem o impacto da experiência. E os planos futuros envolvem a confecção de um livro falando sobre tudo o que aconteceu.

Para muitos, o fato de Tom nunca ter pago pelo o que fez é inadmissível. Durante uma visita de ambos ao Royal Festival Hall, em Londres, manifestantes se mobilizaram em um protesto contra o rapaz, aos gritos de "temos um estuprador neste prédio!". De acordo com a organização do evento, a palestra não poderia ser cancelada, pois é muito irresponsável deixar de tratar um assunto tão grave: "O estupro é um assunto crucial e precisamos mudar um pouco a discussão em torno dele, que muito frequentemente se foca mais nas vítimas do que nos agressores", disse a diretora artística Jude Kelly em comunicado oficial.

No entanto, os protestantes não estavam dispostos a abrir mão de sua causa. Diane Langford, uma senhora de 75 anos que já enfrentou o trauma de passar por um estupro, comentou à BBC que "o estuprador está lucrando com seu crime".

A ideia das palestras ganhou força em 2005, nove anos após o fatídico episódio. Corajosa, Thordis decidiu entrar em contato com Stranger e, de forma inesperada, o australiano se ofereceu disposto a fazer tudo o que fosse preciso para se redimir do que fez. E como de acordo com a legislação da Islândia o crime já havia sido prescrito - quando ocorre um lapso de tempo entre o ocorrido e a denúncia, fazendo com que o agente não possa mais ser punido pelo estado -, além das palestras, o pensamento de escrever um livro também entrou em pauta.

Naturalmente, a ideia ousada gera muita polêmica. Nas palestras, vítima e agressor ficam de cara um para o outro enquanto abordam o assunto do abuso. Uma petição online encaminhada para o Southbank Centre, local onde ocorre o Royal Festival Hall, foi criada com a intenção de avisar que o evento poderia encorajar a normalização da violência sexual, e não discutir causar e responsabilidades.

Thordis, que hoje vive na Suécia com marido e filho, defende que abordar o polêmico assunto é uma maneira de ajudar as vítimas a reagir e diminuir o seu sofrimento: "A demonização dos agressores pela mídia atrapalhou minha recuperação. O fato de Tom não ser um monstro e, sim, uma pessoa que tomou uma decisão terrível tornou ainda mais difícil para mim reconhecer seu crime. Ninguém tem o direito de dizer a uma vítima de estupro como lidar com a dor, mas a violência sexual não pode ser tratada apenas como assunto feminino. Homens cometem a maioria dos ataques, mas suas vozes não estão representadas proporcionalmente nessa discussão".

E durante todas as palestras, Stranger não hesita em admitir sua culpa e arrependimento: "Demonstrei repúdio ao ato mesmo quando o cometia. Mas disse a mim mesmo uma mentira: a de que havia sido sexo, não estupro. Negligenciei o imenso trauma que causei a Thordis. E a mentira me deixou com uma culpa atroz".

A reação do público é bastante dividida, mas para surpresa - ou não -, a maioria da recepção é positiva. Quem acompanha as palestras diz que Tom não foge do debate em nenhum momento, enquanto Thordis demonstra muita coragem.

E você, o que acha a respeito de tudo isso? Você é contra ou a favor do que Thordis e Stranger fazem?

Fotos: BBC

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